“Se faz tão mal, por que ela simplesmente não vai embora?”

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“Se faz tão mal, por que ela simplesmente não vai embora?”

Por Karina Brum

Essa talvez seja uma das perguntas mais injustas feitas às mulheres que vivem relacionamentos abusivos:

“Por que você não foi embora antes?”

Vista de fora, a resposta parece simples. Se existe sofrimento, basta terminar. Mas psicologicamente a realidade pode ser muito mais complexa. Relações abusivas podem envolver amor, medo, dependência econômica e emocional, filhos, isolamento social, ameaças, esperança de mudança, culpa e vulnerabilidade emocional ao mesmo tempo. Entenda que permanecer temporariamente não significa desejar a violência.

Uma das razões pelas quais essas relações podem ser difíceis de compreender é que o agressor nem sempre se comporta violentamente. Podem existir momentos de carinho, pedidos de desculpas, promessas, presentes e períodos aparentemente tranquilos. Depois de uma agressão, podem surgir frases como:

“Eu nunca mais vou fazer isso.”

“Você sabe que eu amo você.”

“Eu perdi a cabeça.”

“Vou procurar ajuda.”

Esses períodos podem renovar a esperança de que aquela pessoa carinhosa finalmente permanecerá. Imagine ouvir durante anos, muita das vezes, da própria rede de apoio familiar:

“Você não consegue nada sozinha.”

“Você é problemática.”

“Ninguém vai querer você.”

“Tudo isso acontece por sua culpa.”

A repetição dessas mensagens pode alterar profundamente a maneira como a mulher percebe a si mesma. Ela começa a acreditar que não conseguirá viver sozinha, ser autônoma e dentro desse viés, ela repete o ciclo. 

Algumas mulheres não permanecem porque querem, mas sim, porque sentem medo. Medo de perder os filhos, de não conseguir sustentar-se, de ser perseguida, de ser exposta, de ser ameaçada, de morrer.

Por isso, jamais devemos confundir permanência com consentimento.

“Mas ele também tem um lado maravilhoso”

Essa frase é muito comum, mas nunca foi verdadeira. Pessoas que praticam violência não necessariamente apresentam comportamento agressivo durante 24 horas por dia. Podem ser socialmente agradáveis, profissionais competentes, amigos queridos ou pais aparentemente dedicados. Mas, quando estão a sós, o ambiente pesa, o silencio agride, as agressões começam. E com certeza, a vítima fica ainda mais a confusão psicológica da vítima. Ela pensa:

“Talvez eu esteja exagerando.”

Confie na sua intuição – você nunca estará exagerando dentro desse contexto. A existência de momentos bons não elimina a violência. Quando você começa a não reconhecer mais a si mesma, surgem sinais claros:

  • Ela deixa determinadas roupas.
  • Afasta-se de amigos.
  • Para de sair.
  • Evita assuntos.
  • Apaga mensagens.
  • Muda comportamentos.
  • Aprende a prever o humor do parceiro.
  • Tudo começa a ser organizado para evitar uma nova crise.

Se você conhece uma mulher nessa situação, evite dizer:

“Você gosta de sofrer.”

“Eu já teria ido embora.”

“Como você aceita isso?”

Essas frases aumentam vergonha e isolamento. A saída de uma relação abusiva não é simplesmente uma decisão amorosa. Muitas vezes é um processo psicológico, social, financeiro e de segurança. E compreender isso pode ser a diferença entre julgar uma mulher e realmente ajudá-la.

Beijos da Ka,

Karina Brum é psicóloga e sexóloga. E tem como propósito desmistificar tabus, preconceitos socioculturais e crenças limitantes, oferecendo ferramentas que libertem a pessoa para seguir sua vida de forma singular. Além de falar sobre as demandas sexuais e da sexualidade humana, de forma divertida, científica, às vezes meio irônica, porém sempre muito sensata.

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