Por Karina Brum
Todos os anos, em 31 de julho, o mundo celebra o Dia do Orgasmo. Embora muitas pessoas imaginem que a data tenha surgido por iniciativa de instituições de saúde, sua origem é curiosa: ela nasceu em 1999, no Reino Unido, durante uma campanha que tinha como objetivo incentivar a discussão sobre o prazer feminino e quebrar tabus relacionados à sexualidade. Com o passar dos anos, a proposta ultrapassou o caráter comercial e passou a ser adotada por profissionais da saúde como uma oportunidade para promover educação sexual baseada em evidências.
Mas a pergunta que realmente importa é: por que falar sobre orgasmo é importante para a saúde das mulheres? Simples: orgasmo não é luxo – é parte da saúde sexual.
Durante muito tempo, a sexualidade feminina foi tratada como um tema secundário. O prazer da mulher era visto como algo opcional, enquanto a satisfação masculina ocupava o centro das discussões sobre sexo. Felizmente, a ciência tem mostrado uma realidade bastante diferente.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde sexual como um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado à sexualidade. Isso significa que viver a sexualidade de forma saudável envolve muito mais do que ausência de doenças: inclui sentir-se segura, respeitada, conhecer o próprio corpo e, quando desejado, experimentar prazer. Nesse contexto, o orgasmo deixa de ser apenas o “final feliz” de uma relação sexual e passa a ser compreendido como um possível indicador de bem-estar físico e emocional.
Mas, o que acontece no cérebro durante o orgasmo?
O orgasmo desencadeia uma verdadeira cascata de substâncias químicas que contribuem para o equilíbrio do organismo. Entre elas estão:
- Dopamina: associada à sensação de recompensa e prazer.
- Ocitocina: conhecida como o hormônio do vínculo afetivo e da confiança.
- Endorfinas: que ajudam a aliviar dores e promovem sensação de bem-estar.
- Prolactina: relacionada ao relaxamento e à sensação de satisfação após o orgasmo.

Essas alterações neuroquímicas ajudam a explicar por que muitas pessoas relatam redução da tensão, melhora do humor, relaxamento muscular e maior sensação de conexão emocional após uma experiência sexual prazerosa. Os estudos científicos sugerem que mulheres que vivenciam uma sexualidade satisfatória tendem a apresentar diversos benefícios, entre eles:
- redução dos níveis de estresse;
- melhora da qualidade do sono;
- diminuição da tensão muscular;
- maior percepção de autoestima corporal;
- fortalecimento do vínculo afetivo nos relacionamentos;
- melhora da lubrificação e da circulação sanguínea na região pélvica;
- maior facilidade para reconhecer os próprios desejos, limites e necessidades.
É importante destacar que esses benefícios não dependem exclusivamente do orgasmo em si, mas da qualidade da experiência sexual como um todo, especialmente quando ela acontece de forma consensual, segura e prazerosa.
E quando o orgasmo não acontece?
Pesquisas mostram que uma parcela significativa da população feminina apresenta dificuldade frequente para atingir o orgasmo. Essa condição, quando persistente vem acompanhada de sofrimento psíquico e pode caracterizar um quadro chamado anorgasmia. Ao contrário do que muitos imaginam, isso raramente significa que “há algo de errado” com a mulher. Os fatores mais comuns que interferem ou influenciam na resposta orgástica são:
* ansiedade;
* estresse crônico;
* educação sexual baseada em culpa ou vergonha;
* experiências traumáticas;
* dificuldades no relacionamento;
* dor durante a relação sexual;
* alterações hormonais;
* uso de alguns medicamentos, especialmente antidepressivos.
Por isso, reduzir a experiência sexual a uma questão de desempenho costuma aumentar ainda mais a pressão e dificultar o prazer.
E que fique claro: o orgasmo não deve ser uma obrigação. Existe um conceito bastante discutido na sexologia contemporânea: o de que transformar o orgasmo em uma meta pode, paradoxalmente, dificultar sua ocorrência. Quando a mulher entra na relação pensando apenas em “precisar chegar lá”, o cérebro tende a permanecer em estado de monitoramento constante. Esse excesso de autocobrança aumenta a ansiedade e reduz a capacidade de estar presente no momento, exatamente o oposto do que favorece o prazer.
Em outras palavras: o prazer floresce com presença, segurança e conexão, não com cobrança.
Conhecer o próprio corpo, compreender como o prazer acontece, comunicar desejos ao parceiro (ou parceira) e reconhecer limites são atitudes que fazem parte da saúde sexual. Da mesma forma que aprendemos a cuidar da alimentação, do sono e da saúde mental, também podemos aprender sobre nossa resposta sexual sem culpa, vergonha ou constrangimento. Embora o orgasmo traga benefícios fisiológicos importantes, talvez sua maior contribuição seja outra.
Quando uma mulher se sente autorizada a viver sua sexualidade de forma consciente, respeitando seus desejos e limites, ela fortalece aspectos fundamentais da saúde mental: autoestima, autonomia, confiança, intimidade e conexão consigo mesma.
Por isso, neste 31 de julho, vale lembrar que o verdadeiro convite não é perseguir orgasmos a qualquer custo, mas sim, reconhecer que o prazer feminino merece espaço, informação, respeito e cuidado. Porque cuidar da saúde sexual também é cuidar da saúde emocional. E ambas caminham juntas ao longo de toda a vida.
Beijos da Ka,












