Quando o cuidado começa a se transformar em controle.

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Quando o cuidado começa a se transformar em controle.

Por Karina Brum

Todo relacionamento começa com uma história sendo construída. Há encontros, expectativas, mensagens, demonstrações de carinho, desejo de proximidade e a sensação de estar conhecendo alguém especial. Por isso, pode ser difícil perceber quando determinados comportamentos aparentemente românticos começam, aos poucos, a ultrapassar limites importantes. Relacionamentos abusivos quase nunca começam com violência física.

Muitas vezes, começam com controle disfarçado de cuidado, ciúme apresentado como amor, invasão de privacidade confundida com intimidade e possessividade interpretada como demonstração de interesse. É justamente por isso que aprender a reconhecer sinais precoces pode ser uma importante estratégia de prevenção.

Entenda que sentir ciúmes não é prova de amor. Frases como:

“Eu tenho ciúmes porque amo você.”

“Não gosto daquele seu amigo.”

“Por que você precisa sair sem mim?”

“Se você me respeitasse, não usaria essa roupa.”

“Me manda sua localização para eu saber onde você está.”

“Por que demorou para responder?”

Isoladamente podem parecer apenas conflitos ou inseguranças. O problema aparece quando deixam de ser episódios pontuais e começam a formar um padrão de vigilância, restrição e controle. Enquanto psicóloga e sexóloga, dentro dos estudos sobre violência por parceiro íntimo, ressalto a importância de observar não apenas um comportamento isolado, mas sua frequência, sua intensidade, o contexto e a função. Então, se faça a seguinte pergunta: essa relação permite que eu continue sendo livre para ser quem sou?

Sinais que merecem atenção

1. Ciúme excessivo

Questionamentos constantes sobre onde você está, com quem conversou, quem curtiu suas fotos ou quem enviou determinada mensagem.

2. Necessidade de monitoramento

Exigir localização, senhas, acesso ao celular ou explicações constantes sobre sua rotina.

3. Tentativas de afastá-la de pessoas importantes

O parceiro começa a criticar seus amigos, familiares ou colegas e cria conflitos sempre que você deseja encontrá-los. O isolamento pode aumentar a dependência emocional da mulher e diminuir sua rede de apoio.

4. Desqualificação disfarçada de brincadeira

Comentários sobre seu corpo, inteligência, trabalho, idade ou capacidade que são apresentados como “piadas”.

Quando você demonstra incômodo, pode ouvir:

“Você não sabe brincar.”

“Você leva tudo a sério.”

5. Inversão frequente da responsabilidade

Ele machuca, ofende ou desrespeita, mas consegue terminar a discussão fazendo você acreditar que provocou a situação.

6. Explosões de raiva desproporcionais

Pequenas frustrações desencadeiam gritos, socos em paredes, objetos quebrados, direção perigosa ou ameaças. Mesmo quando a agressão ainda não é direcionada diretamente à mulher, comportamentos intimidatórios precisam ser considerados seriamente.

7. Desrespeito aos seus limites sexuais

Insistir depois de você dizer não, fazer chantagem emocional para conseguir sexo ou tentar convencê-la de que você tem obrigação de satisfazê-lo. Consentimento precisa existir também dentro de relacionamentos estáveis e casamentos.

8. Tentativa de controlar sua aparência

Determinar quais roupas você pode usar, como deve se maquiar ou como deve se comportar diante de outras pessoas.

9. Controle financeiro

Questionar cada gasto, impedir que você trabalhe, controlar sua conta bancária ou criar situações que aumentem sua dependência econômica.

10. Medo de contrariá-lo

Talvez este seja um dos sinais subjetivos mais importantes. Você começa a escolher palavras cuidadosamente, esconder determinadas coisas ou mudar comportamentos simplesmente para evitar a reação dele. Nunca se diminua para que essa relação dure. Existe uma diferença importante entre negociar dentro de um relacionamento e abandonar progressivamente sua autonomia para evitar conflitos. Em uma relação saudável, duas pessoas podem discordar.

  • Não se esqueça:
  • Você pode dizer não.
  • Pode ter amigos.
  • Pode trabalhar.
  • Pode estudar.
  • Pode manter privacidade.
  • Pode discordar politicamente, religiosamente ou emocionalmente.
  • Pode terminar uma conversa.
  • Pode recusar uma relação sexual.
  • Pode decidir terminar o relacionamento.

E nenhuma dessas decisões deveria colocar sua integridade física ou psicológica em risco. Reflita para poder me responder as perguntas abaixo: 

Eu tenho mais liberdade ou menos liberdade desde que comecei este relacionamento?

Estou mais próxima ou mais distante das pessoas que amo?

Eu posso discordar sem sentir medo?

Tenho liberdade sobre meu corpo, dinheiro, roupas e rotina?

Eu preciso constantemente provar que sou confiável?

Eu tenho medo da reação dessa pessoa caso decida terminar?

Entenda, relacionamentos saudáveis irão ter conflitos, mas quando há amor, não sentimos medo enquanto condição para existir. E o mais importante, saber reconhecer sinais precocemente não significa condenar alguém antecipadamente, mas sim, significa aprender a proteger aquilo que nenhuma relação deveria retirar de você: sua autonomia, sua dignidade e sua liberdade.

Um beijo da Ka,

Karina Brum é psicóloga e sexóloga. E tem como propósito desmistificar tabus, preconceitos socioculturais e crenças limitantes, oferecendo ferramentas que libertem a pessoa para seguir sua vida de forma singular. Além de falar sobre as demandas sexuais e da sexualidade humana, de forma divertida, científica, às vezes meio irônica, porém sempre muito sensata.

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