Sexualidade da mulher oncológica: o direito ao prazer, à intimidade e à reconexão com o próprio corpo

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Sexualidade da mulher oncológica: o direito ao prazer, à intimidade e à reconexão com o próprio corpo

Por Karina Brum

Passar pelo tratamento oncológico é desafiador. A mulher passará por mudanças corporais, psicológicas e sexuais. E por isso, precisamos dialogar sobre isso. Durante o tratamento, cada corpo reage de uma forma, e cada mente faz o possível para se readaptar aquela nova realidade. Autoestima e a autoimagem certamente passarão por uma ressignificação. A energia libidinal começa a ser canalizada para a jornada da sobrevivência. E é neste momento, que a mulher prioriza a vida, e não as relações sexuais. 

Mesmo existindo tratamentos de última geração, a sexualidade feminina vai ocupar um espaço secundário nas conversas entre profissionais de saúde e pacientes. O foco costuma estar na sobrevivência, na eficácia terapêutica e no controle dos sintomas. Entretanto, sobreviver ao câncer também precisa significar ter a oportunidade de recuperar a qualidade de vida, a autonomia corporal e o bem-estar sexual.

A sexualidade não se resume ao ato sexual ou à penetração vaginal. Ela envolve sensações, afetividade, identidade, erotismo, vínculo, autoestima e a possibilidade de reconhecer o próprio corpo como fonte de experiências positivas. E cada mulher vive a doença de forma singular, ou seja, cada experiencia será diferente para cada uma delas. As repercussões vão depender da localização, do tratamento realizado, da idade, das condições hormonais e da história sexual e emocional da mulher.

É esperado que haja um redução do desejo sexual correlacionada à fadiga, ao sofrimento emocional, às mudanças hormonais e aos efeitos colaterais dos tratamentos. O ressecamento vaginal e vulvar pode acontecer devido à redução estrogênica decorrente de determinadas terapias. Também são relatados casos de dispareunia (dor durante a atividade sexual) que pode ocorrer por alterações na lubrificação, na elasticidade dos tecidos, na musculatura pélvica ou por outras causas.

Algumas mulheres mencionam alterações na resposta orgástica – algumas mulheres percebem mudanças na intensidade, na facilidade ou na qualidade do orgasmo. A imagem corporal é afetada devido as cicatrizes, como por exemplo no caso de mastectomia total. A medicação ocasiona, na maioria dos casos perda de cabelo, alterações de peso e mudanças na sensibilidade sensorial. Isso tudo gera um medo de ter intimidade. O receio da dor, da rejeição, de não corresponder às expectativas ou de não reconhecer o próprio corpo.

Por isso é fundamental compreender que essas mudanças não significam o fim da sexualidade. Muitas podem ser tratadas, reduzidas ou administradas por meio de cuidados interdisciplinares. Existem Sex toys específicos para esses casos, que servem como recursos de reconexão corporal e reabilitação sexual. Seu uso não deve ser compreendido apenas como entretenimento sexual, mas também como uma possibilidade de exploração sensorial, autoconhecimento e recuperação da confiança no próprio corpo.

Vibradores externos e estimuladores clitorianos

Para mulheres que apresentam desconforto com a penetração, os dispositivos de estimulação externa podem oferecer alternativas de prazer sem exigir introdução vaginal. A estimulação clitoriana pode favorecer a percepção de sensações prazerosas e permitir que a mulher redescubra sua resposta sexual respeitando seus limites.

Dispositivos com intensidade ajustável e materiais não porosos, como silicone de qualidade apropriada para contato corporal, são preferíveis. Mas fica a atenção aqui, durante períodos de maior vulnerabilidade, como neutropenia, lesões, inflamação, sangramento, dor importante ou recuperação cirúrgica, o uso deve ser discutido com a equipe assistente – a vibração intensa sobre áreas irradiadas, operadas ou com sensibilidade alterada pode causar desconforto ou lesões.

Dilatadores vaginais terapêuticos

Em determinados tratamentos, especialmente após radioterapia pélvica, podem ocorrer alterações na elasticidade vaginal, estreitamento e aderências. Nesses casos, dilatadores vaginais de tamanhos progressivos podem integrar programas de reabilitação sexual, conforme avaliação individualizada. Seu objetivo não é obrigatoriamente proporcionar prazer, mas ajudar a preservar ou recuperar a funcionalidade vaginal, a tolerância ao toque e, quando indicado, facilitar exames ginecológicos. 

É fundamental distinguir dilatadores terapêuticos de brinquedos sexuais comuns. A indicação, o momento de iniciar, a frequência e a técnica de utilização precisam ser orientadas pela equipe de oncologia, ginecologia, fisioterapia pélvica ou sexólogo (a). O foco deve estar no conforto, na curiosidade e na autonomia, e não na obrigação de alcançar orgasmos ou retomar rapidamente a atividade sexual anterior ao diagnóstico.

Lubrificantes íntimos: conforto, proteção e qualidade de vida

Nesse contexto, os lubrificantes íntimos deixam de ser apenas acessórios eróticos e passam a desempenhar um papel importante no conforto sexual. Entretanto, nem todos os produtos disponíveis no mercado são adequados para uma mucosa vaginal sensibilizada. OA American Cancer Society recomenda considerar lubrificantes à base de água ou silicone, preferencialmente sem aditivos irritantes, e diferencia seu uso dos hidratantes vaginais regulares.

Antes de iniciar ou retomar atividades sexuais, especialmente durante quimioterapia, radioterapia, recuperação cirúrgica ou imunossupressão, é importante esclarecer com a equipe oncológica quais práticas são seguras naquele momento. A retomada pode incluir carícias, massagens, intimidade sem penetração, exploração sensorial e, quando apropriado, uso de dispositivos eróticos.

Os brinquedos devem ser higienizados conforme as instruções do fabricante, não devem ser compartilhados sem proteção e precisam ser suspensos diante de dor, sangramento ou irritação. Durante alguns tratamentos, também podem existir recomendações específicas sobre preservativos, contracepção e exposição da parceria a medicamentos presentes em secreções corporais.

Existe uma dimensão frequentemente esquecida no cuidado oncológico: a mulher não deixa de ser um sujeito sexual porque recebeu um diagnóstico de câncer. Ela pode desejar relações sexuais, preferir apenas intimidade afetiva, redescobrir o prazer individualmente ou simplesmente não querer qualquer atividade sexual durante determinado período. Todas essas possibilidades merecem respeito.

A proposta da reabilitação sexual não é devolver a mulher a um padrão anterior de desempenho, mas ajudá-la a reconstruir uma relação possível, confortável e satisfatória com o corpo que tem hoje. O prazer não deve ser uma obrigação durante a recuperação. Mas também não merece ser esquecido, afinal, ter prazer, receber carinho e afeto, auxiliam e muito no reestabelecimento da saúde física e mental feminina.

Beijos da Ka,

Karina Brum é psicóloga e sexóloga. E tem como propósito desmistificar tabus, preconceitos socioculturais e crenças limitantes, oferecendo ferramentas que libertem a pessoa para seguir sua vida de forma singular. Além de falar sobre as demandas sexuais e da sexualidade humana, de forma divertida, científica, às vezes meio irônica, porém sempre muito sensata.

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