Por Karina Brum
Nem todo objeto introduzido na vagina para trabalhar a sexualidade é um sex toy.
Aprender essa diferença é importante. Nos últimos anos, produtos destinados à saúde do assoalho pélvico ganharam espaço fora dos consultórios. Dilatadores vaginais, treinadores de musculatura pélvica, dispositivos de biofeedback e os chamados pelvic wands podem hoje ser encontrados facilmente na internet. O acesso aumentou.
A orientação adequada nem sempre acompanhou esse crescimento.
E que fique claro: dilatadores vaginais não servem para “alargar a vagina” – Essa talvez seja uma das ideias mais importantes para desmistificar. Os dilatadores geralmente são apresentados em tamanhos progressivos e podem fazer parte da abordagem de algumas condições relacionadas à dor, dificuldade de penetração ou necessidade de reabilitação.
Dependendo do caso, seu uso pode ajudar na exposição gradual à penetração, percepção corporal, redução da resposta de ameaça e aprendizado do relaxamento da musculatura pélvica. Mas colocar um objeto maior progressivamente não é, isoladamente, um tratamento psicológico ou fisioterapêutico. Existe uma pessoa por trás daquele sintoma.
Medo, experiências dolorosas anteriores, ansiedade antecipatória, crenças sobre sexo, história relacional e funcionamento muscular podem participar do quadro.
E o que são pelvic wands?
São instrumentos geralmente alongados e curvos desenvolvidos para permitir acesso a determinadas regiões da musculatura do assoalho pélvico. Podem ser utilizados, sob orientação adequada, no trabalho sobre tensão muscular e pontos dolorosos. Tipo uma “fisioterapia miorrelaxante”, contudo, nos músculos vaginais e perineais. E justamente por alcançarem estruturas internas, não deveriam ser utilizados como se fossem simplesmente mais um brinquedo sexual. Lembrando que a dor pélvica possui inúmeras causas. Tentar encontrar e pressionar um “ponto de tensão” sem avaliação profissional pode não resolver a origem do problema.
E os aparelhos inteligentes de Kegel?
A tecnologia trouxe uma novidade interessante: dispositivos capazes de fornecer biofeedback. Em vez de a pessoa simplesmente contrair a musculatura imaginando que está realizando o movimento corretamente, sensores podem fornecer informações sobre sua contração e transformar o treinamento em exercícios guiados — algumas plataformas chegam a utilizar elementos de jogos. Parece perfeito. Mas existe uma pegadinha.

O assoalho pélvico saudável não precisa somente contrair, ele precisa conseguir contrair e relaxar adequadamente. Uma musculatura permanentemente tensionada não é necessariamente uma musculatura funcional. Por isso, a ideia de que toda mulher deveria fazer centenas de exercícios de Kegel precisa ser vista com cautela.
Psicologia, corpo e dor sexual
Quando falamos de dor sexual, separar completamente mente e corpo costuma ser pouco produtivo. O cérebro aprende. Se a penetração repetidamente provoca dor, ela pode passar a ser interpretada como uma ameaça antes mesmo do contato acontecer. A antecipação pode aumentar ansiedade, vigilância corporal e tensão muscular.
Por isso, determinados tratamentos funcionam melhor quando diferentes áreas trabalham juntas. A ginecologia investiga as causas orgânicas, a fisioterapia pélvica avalia músculos, coordenação, tensão e função e a psicologia e sexologia trabalham ansiedade, medo, crenças, experiências anteriores, relacionamento e reconstrução da segurança sexual.
Reforçando: Acessório não é diagnóstico
O avanço dessas tecnologias é bem-vindo porque amplia possibilidades de cuidado.
Mas existe uma regra simples que vale a pena guardar: quanto mais um produto promete tratar uma disfunção, mais importante se torna perguntar qual é a evidência científica dessa promessa.
A saúde sexual está ganhando tecnologia, e por isso é importante ela vir acompanhada da ciência.
Beijos da Ka












