Quando o prazer passa pelo smartphone: a nova intimidade dos casais

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Quando o prazer passa pelo smartphone: a nova intimidade dos casais

Por Karina Brum

Um casal pode estar a dez centímetros de distância e emocionalmente desconectado. E duas pessoas separadas por milhares de quilômetros podem construir uma experiência de intimidade. Essa aparente contradição ajuda a compreender uma das áreas que mais cresceram no mercado de produtos sexuais: os dispositivos conectados.

Vibradores controlados por aplicativo, estimuladores comandados remotamente e acessórios que permitem interação sexual à distância estão transformando a maneira como alguns casais exploram intimidade e erotismo. O celular entrou na experiência sexual. Alguns dispositivos permitem que o próprio usuário controle intensidade, ritmo e padrões de estimulação pelo smartphone. Outros possibilitam entregar temporariamente esse controle ao parceiro. Isso cria uma experiência psicológica interessante porque o estímulo não é apenas físico.

Existe expectativa.
Existe antecipação.
Existe brincadeira.

Existe a percepção de que outra pessoa está participando daquela experiência. Para casais que vivem relacionamentos à distância — inclusive modelos LAT, nos quais cada parceiro mantém sua própria residência — essas tecnologias criam formas de preservar o repertório erótico. A utilidade não se restringe à distância geográfica.

Foto-de-Julianna-Santos-23 Quando o prazer passa pelo smartphone: a nova intimidade dos casais

Relacionamentos longos frequentemente enfrentam um fenômeno muito mais cotidiano: previsibilidade. Horários, filhos, trabalho, contas, tarefas domésticas e cansaço podem fazer o casal funcionar extremamente bem como equipe administrativa e cada vez menos como dupla erótica. Nesse contexto, introduzir novidade pode funcionar como convite para sair do piloto automático. Não porque o
brinquedo possua algum poder especial.

Mas porque ele cria uma situação excitante inovadora. E novidade, curiosidade, expectativa e fantasia podem participar da construção da excitação.

E por favor, o acessório não deve substituir comunicação entre o casal.

Existe, entretanto, deixo um aviso: comprar tecnologia sexual para resolver uma relação sexualmente desconectada sem conversar sobre essa “desconexão afetiva”não irá ser a chave do sucesso! Nenhum aplicativo consegue resolver ressentimento acumulado.

Nenhum vibrador corrige falta de consentimento. Nenhum masturbador automatizado produz intimidade emocional. E nenhum brinquedo substitui uma conversa sobre desejo.

Antes de introduzir qualquer recurso no relacionamento, algumas perguntas podem ser muito mais poderosas:

  1. O que desperta seu desejo atualmente?
  2. Existe alguma coisa que você gostaria de experimentar comigo?
  3. Existe algo que fazemos sexualmente apenas por obrigação?
  4. Em que momentos você se sente mais desejado ou desejada?
  5. O que faria nossa vida sexual parecer menos automática?
  6. E a inteligência artificial?

A próxima fase já começou. Produtos e aplicativos estão incorporando algoritmos capazes de personalizar padrões de estimulação e responder às preferências do usuário. A tendência é que dispositivos se tornem progressivamente mais adaptativos.

Isso também traz uma questão pouco discutida: privacidade sexual digital. Um dispositivo conectado pode lidar com informações extremamente íntimas sobre comportamento, preferências e padrões de utilização. Por isso, segurança digital e política de dados deveria entrar na decisão de compra tanto quanto potência, material ou design.

A tecnologia pode aproximar? Pode. Mas depende do lugar que damos a ela.

Quando utilizada consensualmente, com curiosidade e comunicação, pode ampliar o repertório erótico de um casal. Quando utilizada para evitar conversas necessárias, provavelmente apenas adicionará tecnologia a um problema que continuará existindo.

A sexualidade humana sempre foi muito maior do que o ato sexual. É vínculo, corpo, fantasia, comunicação, desejo, vulnerabilidade, segurança e descoberta. Talvez seja exatamente por isso que, mesmo cercados pela tecnologia mais sofisticada, uma das
perguntas mais importantes continue sendo profundamente humana:

“Como você gostaria de ser tocado por mim?”

Beijos da Ka,

Karina Brum é psicóloga e sexóloga. E tem como propósito desmistificar tabus, preconceitos socioculturais e crenças limitantes, oferecendo ferramentas que libertem a pessoa para seguir sua vida de forma singular. Além de falar sobre as demandas sexuais e da sexualidade humana, de forma divertida, científica, às vezes meio irônica, porém sempre muito sensata.

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