Vibrador de 1900 vira personagem em série da Netflix — e a história é mais curiosa do que parece

Vibrador de 1900 vira personagem em série da Netflix — e a história é mais curiosa do que parece

Um vibrador aparece em uma cena de Monster: The Lizzie Borden Story, nova produção da Netflix, e chama atenção justamente por parecer deslocado no tempo.

Afinal, um aparelho desse tipo existia no começo do século XX?

A resposta é sim.

E o objeto que aparece na série tem um correspondente histórico bastante curioso: o VeeDee, um vibrador mecânico fabricado em Londres e registrado em acervos de museus como um aparelho utilizado para massagens vibratórias.

Mas antes de transformar a cena em mais uma história sobre “o primeiro vibrador”, vale separar o que é fato histórico do que é criação da televisão.

O VeeDee realmente existiu

O Science Museum Group, no Reino Unido, preserva exemplares do VeeDee produzidos entre aproximadamente 1900 e 1915.

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O aparelho chama atenção imediatamente pelo formato. Feito com corpo metálico, cabo e mecanismo mecânico de vibração, ele está muito distante da aparência discreta dos produtos que encontramos atualmente em um sex shop.

E havia uma razão para isso.

O VeeDee era comercializado como massageador vibratório, associado a aplicações terapêuticas.

Na publicidade da época, a vibração era apresentada como recurso para diferentes problemas de saúde e bem-estar. O aparelho fazia parte de um mercado que reunia massagens, tratamentos físicos e equipamentos de vibração.

O próprio acervo do Science Museum Group registra um exemplar como um “mechanical vibrator” produzido em Londres no início do século XX.

Ou seja: não se trata de uma invenção criada para a série.

O aparelho — ou pelo menos aparelhos muito semelhantes — fazia parte da tecnologia disponível naquele período.

Mas Lizzie Borden realmente usou um vibrador?

Aqui é preciso cuidado.

Não há comprovação histórica de que Lizzie Borden tenha utilizado um VeeDee ou outro vibrador como mostrado na série.

Lizzie Borden foi uma pessoa real. Em 1892, seu pai, Andrew Borden, e sua madrasta, Abby Borden, foram assassinados em Fall River, Massachusetts. Lizzie foi acusada, julgada no ano seguinte e absolvida.

O caso permaneceu cercado de dúvidas e se tornou um dos crimes mais conhecidos da história americana.

A produção da Netflix, porém, não é um documentário. A série mistura personagens e acontecimentos reais com elementos ficcionais para construir sua narrativa.

Portanto, a presença do vibrador deve ser entendida nesse contexto.

O objeto é historicamente plausível. A utilização por Lizzie Borden pertence à dramatização.

Essa diferença é importante — especialmente quando uma produção de entretenimento trabalha com personagens que realmente existiram.

E por que um vibrador estava sendo vendido naquela época?

É aqui que a história fica ainda mais interessante.

No final do século XIX e início do século XX, equipamentos de vibração eram divulgados principalmente dentro de um contexto terapêutico.

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A chamada “vibração” era apresentada como uma técnica que poderia auxiliar em diferentes tratamentos. Havia aparelhos mecânicos e elétricos, empresas especializadas e até publicidade direcionada a médicos e profissionais da saúde.

A Wellcome Collection, no Reino Unido, conserva materiais históricos relacionados à Vibrator Instrument Company, de Chattanooga, nos Estados Unidos.

Anúncios e catálogos da época apresentavam equipamentos vibratórios como instrumentos terapêuticos.

Isso mostra que a tecnologia não era algo clandestino ou desconhecido.

Ela estava sendo comercializada abertamente.

O curioso é observar como um aparelho que hoje é imediatamente associado ao prazer sexual podia aparecer em catálogos e ambientes ligados à medicina e à massagem.

O tamanho também impressiona

Se hoje um vibrador pode caber na palma da mão, alguns dos equipamentos históricos eram bem mais impressionantes.

Um dos modelos VeeDee preservados pelo Science Museum Group mede aproximadamente 37 centímetros.

O objeto tem corpo metálico, diferentes partes mecânicas e um cabo longo.

Mais parece um instrumento de oficina do que aquilo que o consumidor contemporâneo reconheceria como um produto erótico.

E justamente por isso ele ajuda a visualizar uma época em que tecnologia, medicina, massagem e intimidade ocupavam fronteiras muito diferentes das atuais.

A publicidade já era parte da história

Outro detalhe interessante é que esses aparelhos não existiam isoladamente.

Havia fabricantes, representantes, catálogos e anúncios.

O VeeDee, por exemplo, aparece associado a uma comunicação que destacava seus supostos benefícios para o corpo e o bem-estar.

Essa publicidade é particularmente reveladora porque mostra como um produto podia ser apresentado de maneira completamente diferente daquela que seria utilizada hoje.

A palavra “prazer” não precisava aparecer.

A promessa estava em conceitos como conforto, relaxamento, saúde e vitalidade.

Para quem trabalha com o mercado erótico, essa parte da história é especialmente interessante: o produto também é definido pela maneira como é apresentado ao consumidor.

O que a série resgata sem necessariamente contar a verdade

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A grande contribuição de uma produção como Monster: The Lizzie Borden Story talvez esteja justamente em despertar curiosidade sobre objetos que ficaram esquecidos.

Uma cena de poucos segundos pode levar o espectador a pesquisar:

“Vibrador existia em 1900?”

E a resposta abre uma porta para uma história muito maior.

Existiam aparelhos mecânicos.

Existiam fabricantes.

Existiam anúncios.

Existiam consumidores.

E existia uma tecnologia que já fazia parte do cotidiano de determinadas pessoas muito antes de o conceito moderno de mercado erótico se consolidar.

Isso é diferente de afirmar que mulheres do período utilizavam esses equipamentos da mesma maneira que os produtos são utilizados hoje.

A história é mais complexa — e justamente por isso é mais interessante.

O curioso personagem que quase rouba a cena

Talvez o mais divertido nessa história seja imaginar que, em uma série sobre um dos crimes mais famosos dos Estados Unidos, um objeto com mais de cem anos de história consiga despertar tanta curiosidade quanto os próprios personagens.

O VeeDee não é apenas um aparelho antigo.

Ele é uma pequena peça de uma época em que novas tecnologias estavam começando a transformar a relação das pessoas com o corpo.

E, mais de um século depois, ele reaparece na cultura pop.

Desta vez, não em um catálogo médico ou em um consultório.

Mas em uma produção da Netflix sobre Lizzie Borden.

A cena é ficção. O aparelho, não.

E talvez seja justamente essa mistura entre história real e imaginação que torne esse detalhe de Monster: The Lizzie Borden Story tão interessante.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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