A Era dos Produtos Discretos: Menos Aparência de Sex Shop, Mais Lifestyle

A Era dos Produtos Discretos: Menos Aparência de Sex Shop, Mais Lifestyle

Durante muito tempo, o produto erótico precisava deixar claro o que era.

Cores fortes, formatos fálicos, nomes provocantes e embalagens explícitas ajudaram a construir a identidade do mercado. Funcionaram — e ainda funcionam para determinadas categorias e públicos.

Mas o design está abrindo uma nova frente.

Cada vez mais, aparecem produtos que não parecem ter saído de um sex shop. Eles poderiam estar em uma nécessaire, sobre uma mesa de cabeceira, ao lado de um perfume ou até em uma prateleira de objetos de decoração.

Não porque estejam tentando esconder sua função.

Porque estão sendo desenhados para fazer parte da vida.

A discrição mudou de significado

Essa discussão já avançou.

O produto pode ficar na mesa de cabeceira. Pode aparecer em uma shelfie. Pode conviver com livros, perfumes e objetos de decoração.

A questão agora é outra:

por que tantos produtos ainda parecem ter sido desenhados para ficar dentro de uma gaveta?

É aqui que entra uma nova geração de design.

Em vez de tentar esconder o produto, alguns projetos estão tentando fazer com que ele pertença ao ambiente.

O batom, a pedra, a joia

Existem diferentes caminhos.

Alguns produtos exploram o formato de cosméticos. Outros trabalham com formas orgânicas que lembram pedras, pequenas esculturas ou objetos de decoração. Há ainda aqueles que se aproximam visualmente de acessórios de luxo, com metais, acabamentos sofisticados e formas minimalistas.

O interessante é que nenhum desses caminhos depende necessariamente de uma representação explícita da sexualidade.

O desejo pode estar no objeto.

Quando o sex toy começa a parecer um objeto de design

Um exemplo especialmente interessante é o Crema, projeto australiano reconhecido pelo GOOD DESIGN em 2022.

crema-vibrator A Era dos Produtos Discretos: Menos Aparência de Sex Shop, Mais Lifestyle

Seu formato foi inspirado em um redemoinho de creme e o conjunto inclui uma base de carregamento em porcelana e uma capa de vidro soprado.

Mais importante do que a aparência é a intenção declarada no próprio projeto: fazer com que o produto seja percebido como um objeto de design para ficar ao lado da cama, e não escondido embaixo dela.

É uma mudança simples de raciocínio.

O designer não perguntou:

“Como faço um vibrador discreto?”

Perguntou:

“Como faço um objeto bonito que também tenha essa função?”

É outra lógica.

Quando a inspiração vem da perfumaria

Outro caminho aparece no iCherry, vencedor Gold no MUSE Design Awards 2026, na categoria Product Design – Personal Care.

O projeto utiliza a forma de um frasco de perfume de luxo como referência. Tem corpo metálico usinado, superfícies arredondadas, silicone nas áreas de contato e uma caixa de acrílico transparente que funciona praticamente como uma pequena vitrine.

É uma referência interessante para o mercado erótico porque perfume não vende apenas conteúdo.

Vende objeto.

Vende embalagem.

Vende ritual.

Vende desejo.

Existe uma lição importante aí para os fabricantes de produtos de prazer.

Quando a tecnologia desaparece no design

Há também produtos que não tentam parecer objetos de outra categoria.

Eles simplesmente são bem desenhados.

O Satisfyer Dark Desire recebeu o GOOD DESIGN Award em 2020. O modelo combina corpo compacto, acabamento metálico, superfície tátil e uma linguagem visual bastante distante dos formatos exagerados tradicionalmente associados à categoria. O briefing do projeto destacava conforto, discrição e uma proposta voltada também a novos usuários.

sark-satisfyer A Era dos Produtos Discretos: Menos Aparência de Sex Shop, Mais Lifestyle

Aqui existe uma diferença importante.

Ele não precisa parecer batom.

Não precisa parecer maquiagem.

Não precisa fingir que é outra coisa.

É simplesmente um objeto bem resolvido.

O design escultórico abre outra porta

Essa talvez seja uma das possibilidades mais interessantes para os próximos anos.

Quando o produto deixa de precisar representar literalmente sua função, o designer ganha liberdade.

Pode trabalhar com curvas.

Volumes.

Pedras.

Formas orgânicas.

Geometria.

Metal.

Vidro.

Cerâmica.

Texturas.

A linguagem passa a ser muito mais próxima do design de produto do que da antiga estética do sex shop.

E isso aumenta o repertório disponível para criar produtos destinados a diferentes consumidores e ambientes.

O produto começa a disputar espaço com outras categorias

Esse talvez seja o ponto comercial mais importante.

Quando um produto erótico adota uma linguagem mais próxima do lifestyle, ele deixa de disputar atenção exclusivamente dentro da categoria sexual.

Começa a conversar com outros universos:

beleza.

wellness.

tecnologia.

design.

decoração.

presentes.

Um bom exemplo dessa aproximação é a cobertura de produtos de prazer em veículos de lifestyle e viagem. Uma seleção da Condé Nast Traveler publicada em 2026, por exemplo, trata modelos minimalistas como acessórios que podem acompanhar o consumidor em viagens, destacando inclusive design, tamanho e estojo de transporte.

icherry-vibrator A Era dos Produtos Discretos: Menos Aparência de Sex Shop, Mais Lifestyle

A categoria começa a ser tratada como parte da vida cotidiana.

O novo luxo está nos detalhes

Durante muito tempo, a conversa sobre produtos eróticos ficou concentrada em potência, quantidade de velocidades, funções e preço.

Tudo isso continua importante.

Mas o consumidor também compra com os olhos.

Forma.

Textura.

Peso.

Acabamento.

Ruído.

Embalagem.

Carregamento.

Armazenamento.

Experiência.

O produto passa a ser avaliado como objeto.

E quando isso acontece, o design deixa de ser decoração e passa a ser estratégia comercial.

Discreto não é sinônimo de pequeno

Essa é outra questão que merece atenção.

Diminuir o tamanho não resolve o problema.

Um produto pequeno pode ter uma aparência extremamente sexualizada.

Da mesma forma, um produto maior pode ser visualmente discreto.

A discrição também envolve ruído, embalagem, transporte, armazenamento e a maneira como o objeto se integra ao ambiente.

Uma análise recente sobre design discreto resume essa questão em três dimensões: visual, sonora e logística.

Ou seja: não basta reduzir centímetros.

É preciso pensar na experiência completa.

E a embalagem?

Aqui existe uma enorme oportunidade.

Um produto com aparência sofisticada não deveria necessariamente chegar ao consumidor dentro de uma embalagem que utiliza todos os códigos tradicionais do sex shop.

Se o produto pretende ocupar um território de lifestyle, sua embalagem precisa acompanhar.

Não significa transformar tudo em caixas minimalistas e neutras.

Significa ter uma linguagem própria.

Uma boa embalagem pode provocar curiosidade sem entregar tudo.

Pode valorizar o objeto.

Pode transformar a abertura da caixa em parte da experiência.

Pode fazer o produto parecer um presente.

E isso muda a percepção de valor.

O que isso significa para a indústria brasileira?

Talvez seja hora de os fabricantes começarem a olhar para o desenvolvimento de produtos de outra maneira.

Em vez de perguntar:

“Como podemos deixar esse produto mais sexy?”

experimentar:

“Como podemos deixá-lo mais desejável?”

Em vez de pensar apenas na função, pensar no ambiente.

Onde ele ficará?

Como será guardado?

Como será fotografado?

Como aparecerá em uma vitrine?

Como ficará em uma mesa de cabeceira?

Como será levado em uma viagem?

Como será presenteado?

São perguntas de design.

Mas também são perguntas de negócio.

O mercado não precisa abandonar o erotismo

A tendência dos produtos discretos não significa transformar tudo em objeto neutro.

Existe espaço — e continuará existindo — para produtos ousados, divertidos, explícitos e provocantes.

A questão é ampliar o repertório.

O mercado pode ter produtos que gritam.

E pode ter produtos que sussurram.

Pode ter produtos que parecem sex toys.

E pode ter produtos que parecem simplesmente objetos bonitos.

A oportunidade está em entender para quem cada linguagem faz sentido.

Menos aparência de sex shop. Mais lifestyle.

Talvez essa seja uma das mudanças mais interessantes acontecendo no design de produtos eróticos.

O produto não precisa mais provar visualmente que é sexual.

Ele pode ser bonito.

Funcional.

Tecnológico.

Elegante.

Curioso.

Desejável.

E continuar sendo, essencialmente, um produto para o prazer.

Para fabricantes e lojistas, isso significa olhar para uma pergunta que vai muito além da estética:

quantas pessoas poderiam comprar um produto erótico se ele não parecesse um produto de sex shop?

Essa pode ser uma das grandes oportunidades da próxima geração do mercado.

Porque o futuro não precisa ser um mercado com menos erotismo.

Pode ser um mercado com mais design, mais possibilidades e muito mais lugares para o prazer existir.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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