Por Karina Brum
Durante muito tempo, falar em vibradores sexuais significava falar quase exclusivamente sobre prazer e masturbação. Vibradores, estimuladores e outros produtos eram colocados na categoria de “brinquedos eróticos” e, muitas vezes, cercados de vergonha, preconceito e silêncio. Mas este cenário está mudando.
Nos últimos anos, surgiu um conceito muito mais amplo: o sexual wellness, ou bem-estar sexual. A proposta é compreender que prazer, conhecimento do próprio corpo, conforto, intimidade, função sexual e qualidade de vida fazem parte da saúde. Essa mudança acompanha a própria definição de saúde sexual adotada pela Organização Mundial da Saúde, que não a restringe à ausência de doenças ou disfunções. Saúde sexual envolve bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado à sexualidade.
Um vibrador pode proporcionar prazer — e isso, por si só, já é legítimo. Mas determinados acessórios também podem contribuir para que uma pessoa descubra quais tipos de estímulo facilitam sua excitação, reconheça diferentes sensações corporais e desenvolva maior autonomia sobre o próprio prazer. Na prática clínica, isso pode ser especialmente interessante para pessoas que passaram muitos anos vivendo a sexualidade a partir das necessidades do parceiro e sabem pouco sobre aquilo que lhes proporciona prazer.
A tecnologia também ampliou esse universo. Atualmente encontramos dispositivos com diferentes padrões de vibração, estimuladores externos, aparelhos controlados por aplicativos, acessórios para casais à distância e equipamentos desenvolvidos especificamente para o cuidado do assoalho pélvico. O movimento é interessante porque desloca a pergunta de:
“Qual brinquedo sexual devo comprar?”
para:
“O que estou tentando conhecer, recuperar ou desenvolver na minha sexualidade?”
Prazer também é autoconhecimento
Existe uma crença equivocada de que utilizar um vibrador significa ser incapaz de sentir prazer “naturalmente”. E isso não é verdade! O corpo responde a diferentes intensidades, ritmos, pressões e formas de estimulação. Explorar essas respostas pode ajudar uma pessoa a construir seu próprio mapa erótico. Isso pode facilitar inclusive a comunicação sexual no relacionamento. Afinal, fica muito mais difícil dizer ao outro como você gosta de ser tocado quando nem você sabe exatamente do que gosta.
Tecnologia não substitui tratamento
Também é importante fazer uma distinção. Nem todo produto anunciado como “terapêutico” possui evidências científicas suficientes para tratar uma disfunção sexual.
Dificuldade de orgasmo, dor durante a relação, diminuição persistente do desejo, alterações de excitação e outras dificuldades sexuais podem envolver fatores hormonais, neurológicos, vasculares, psicológicos, relacionais e medicamentosos. Comprar um dispositivo sem compreender a origem do problema pode simplesmente mascarar uma questão que precisa ser investigada. A tecnologia pode ser uma ferramenta. Não precisa ser tratada como solução universal.
A verdadeira inovação
Talvez a maior transformação não esteja nos aparelhos. Está na forma como começamos a falar sobre sexualidade. Quando prazer deixa de ser tratado como frivolidade e passa a fazer parte das conversas sobre saúde, autonomia e qualidade de vida, abrimos espaço para uma sexualidade mais consciente. Sex toys podem ser brinquedos. Podem ser ferramentas de autoconhecimento. Alguns podem ser recursos auxiliares dentro de determinados tratamentos. Mas nenhum equipamento substitui algo fundamental para uma vida sexual saudável: conhecer o próprio corpo, compreender os próprios limites e conseguir comunicar desejos, desconfortos e necessidades.
Beijos da Ka,












