O “Sex Shop Gospel” não nasceu ontem: o mercado erótico já estuda esse consumidor há mais de uma década

O “Sex Shop Gospel” não nasceu ontem: o mercado erótico já estuda esse consumidor há mais de uma década

A recente reportagem da Folha de S.Paulo sobre o crescimento de marcas voltadas ao público evangélico — incluindo os chamados “sex shops gospel” — despertou curiosidade e até surpresa em muitos leitores. A matéria mostra como empresas de diversos segmentos passaram a desenvolver produtos e serviços direcionados ao consumidor cristão, evidenciando um mercado bilionário que continua em expansão.

Leia a reportagem da Folha:
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/07/de-cachorro-crente-a-sex-shop-gospel-marcas-evangelicas-disputam-mercado-bilionario.shtml

Para quem acompanha a evolução do mercado erótico brasileiro, porém, essa não é uma novidade.

Muito antes de o tema ganhar espaço na grande imprensa, empresários, consultores e especialistas do setor já estudavam como atender consumidores cristãos de forma ética, respeitosa e alinhada aos seus valores. Essa discussão começou há mais de uma década e ajudou a consolidar um novo olhar sobre a diversidade de perfis existentes dentro do mercado adulto.

A história começou muito antes

Por volta de 2014, o mercado erótico brasileiro começou a perceber um comportamento que contrariava um antigo estereótipo: casais evangélicos também buscavam informações sobre sexualidade, bem-estar íntimo e produtos capazes de fortalecer o relacionamento.

O problema nunca foi a inexistência da demanda.

O desafio era a comunicação.

Na época, muitas lojas utilizavam uma linguagem provocativa e fortemente associada ao erotismo explícito, o que naturalmente afastava consumidores que desejavam discrição e uma abordagem compatível com seus valores.

Foi nesse contexto que nasceu o Projeto Gospel para Sex Shops, iniciativa pioneira que reuniu empresários do setor, consultores matrimoniais e profissionais ligados ao universo cristão para discutir como atender esse público sem confrontar suas crenças.

O projeto resultou no lançamento do livro Guia Gospel para Sexshops e Consultores de Casais, a primeira e creio única publicação brasileira dedicada exclusivamente ao tema. A obra apresentou orientações práticas para empresários compreenderem esse consumidor, respeitando seus princípios sem abrir mão da educação sexual, do bem-estar íntimo e do fortalecimento da vida conjugal. Foi um livro muito importante que escrevi com a colaboração de autores evangélicos.

Guia-Gospel-para-Sexshops O "Sex Shop Gospel" não nasceu ontem: o mercado erótico já estuda esse consumidor há mais de uma década

Conheça o livro:
https://livraria.mercadoerotico.org/product/guia-gospel-para-sexshops-e-consultores-de-casais/

Adquira o livro físico:
https://clubedeautores.com.br/livro/guia-gospel

Nunca foi sobre religião. Sempre foi sobre consumidor.

Talvez o maior equívoco de quem conhece essa história apenas superficialmente seja imaginar que a proposta era aproximar religião e mercado erótico.

Na realidade, o objetivo era muito mais simples: compreender esse perfil específico de consumidor, respeitar seus valores, crenças e dogmas, para oferecer produtos, orientação e atendimento de maneira ética, responsável e alinhada às suas expectativas.

Todo segmento do varejo adapta produtos, atendimento e comunicação aos diferentes públicos que deseja alcançar.

O mercado erótico faz exatamente a mesma coisa.

Assim como existem linhas voltadas para menopausa, terceira idade, saúde íntima, diversidade sexual, pessoas com deficiência ou casais que desejam fortalecer o relacionamento, também existe espaço para consumidores cristãos que procuram produtos compatíveis com seus princípios.

Segmentação não significa criar privilégios.

Significa reconhecer que diferentes pessoas possuem diferentes formas de viver sua intimidade.

O desafio estava na comunicação

Uma das principais conclusões do Projeto Gospel era que o maior obstáculo não estava nos produtos, mas na maneira como eles eram apresentados.

Muitos casais não rejeitavam cosméticos sensuais, óleos para massagem ou determinados acessórios íntimos.

O desconforto surgia quando esses produtos eram associados a uma comunicação apelativa ou incompatível com seus valores.

A proposta, portanto, nunca foi transformar um sex shop em um espaço religioso.

Foi desenvolver uma comunicação mais acolhedora, educativa e respeitosa.

Essa visão, considerada ousada há mais de dez anos, hoje é amplamente utilizada por diversos segmentos do varejo.

Uma iniciativa que ultrapassou o mercado

O impacto do projeto foi muito além das lojas.

O tema passou a despertar interesse de pesquisadores, antropólogos e universidades, tornando-se objeto de estudos sobre comportamento do consumidor, religião, sexualidade e segmentação de mercado.

Isso demonstrou que a iniciativa não representava apenas uma estratégia comercial, mas uma importante mudança na forma como o setor compreendia seus consumidores.

O mercado amadureceu

Quando o Projeto Gospel foi apresentado, houve resistência de diferentes lados.

Parte do próprio mercado erótico acreditava que atender esse público seria impossível.

Ao mesmo tempo, havia consumidores religiosos receosos de qualquer aproximação com o setor.

Com o passar dos anos, ficou evidente que essas barreiras eram muito menores do que se imaginava.

Casais cristãos continuaram buscando formas de melhorar sua vida conjugal, enquanto empresas passaram a compreender que respeito, privacidade e informação geram muito mais confiança do que campanhas baseadas em choque ou provocação.

A Folha mostrou uma tendência. O mercado já vivia essa realidade.

A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo evidencia que empresas de diversos segmentos passaram a disputar a preferência do consumidor evangélico, um público economicamente relevante e cada vez mais consciente de suas escolhas de consumo.

No mercado erótico, entretanto, essa conversa começou anos antes.

O que hoje recebe o rótulo de “sex shop gospel” representa, na verdade, a evolução de um processo iniciado há mais de uma década, quando empresários perceberam que a sexualidade também pode ser tratada com responsabilidade, respeito e diálogo, independentemente da religião.

Mais do que criar um novo nicho, essa iniciativa ajudou a derrubar um dos maiores mitos do setor: o de que fé e bem-estar sexual seriam temas incompatíveis.

A história mostrou exatamente o contrário.

Quando existe respeito às convicções individuais, informação de qualidade e foco no fortalecimento dos relacionamentos, o mercado não divide pessoas. Ele aprende a atendê-las melhor.

Hoje, ao ver o tema ganhar espaço na imprensa nacional, fica evidente que o debate não surgiu agora. O MercadoErotico.org acompanha essa transformação desde seus primeiros passos e continua defendendo que compreender diferentes perfis de consumidores é um dos caminhos para um mercado mais profissional, inclusivo e preparado para atender à diversidade de valores presentes na sociedade.

Talvez essa seja a principal lição dessa história: tendências nem sempre nascem quando chegam às manchetes. Muitas vezes, elas começam anos antes, impulsionadas por profissionais que conseguem enxergar oportunidades onde outros ainda veem apenas preconceitos.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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