Idealizada por Heitor Werneck, a Ala Fetichista na Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo reúne comunidades BDSM, leather e kink em uma das maiores celebrações da diversidade do mundo
A 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo que acontece nesse domingo, dia 07 de junho, promete entrar para a história não apenas pelo marco de suas três décadas de existência, mas também pela superação criativa ao corte de patrocínios e a consolidação de iniciativas que ampliam a representatividade dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+. Entre elas está a Ala Fetichista, projeto idealizado por Heitor Werneck, coordenador artístico da Parada por nove anos consecutivos e pioneiro na criação e realização de eventos fetichistas no Brasil.

A Ala Fetichista desfilará pela nona vez na Parada do Orgulho LBGT+ de São Paulo nesse domingo à frente do carro gay — o quarto carro oficial do desfile — reunindo integrantes das comunidades BDSM, leather, bear, kink e diversos segmentos que defendem a liberdade de expressão, a diversidade de identidades e a valorização das práticas consensuais.
“A Ala Fetichista é um espaço seguro, organizado e confortável dentro da Parada, onde os fetichistas e BDSMers podem ir vestidos como quiserem, para fotografarem e curtirem à vontade. Temos uma faixa de isolamento guardada por seguranças, além de serviço de apoio com fornecimento de água durante todo o evento”, destaca Heitor.

Na abertura da ala, participantes carregarão bandeiras representando diferentes segmentos da cultura fetichista, incluindo BDSM, leather, kink, bear, dog e fetiche. De acordo com Heitor, a iniciativa tem repercutido internacionalmente em países como Finlândia, Alemanha e em comunidades leather da América Latina, tornando-se referência por ser a única Parada LGBT+ do mundo a possuir uma ala fetichista organizada.


Mais do que um espaço de visibilidade, a iniciativa busca combater preconceitos que ainda cercam o universo fetichista. Ao longo dos anos, a ala se transformou em um importante símbolo de inclusão dentro da Parada, reunindo pessoas que encontram no evento uma oportunidade de celebrar sua identidade sem julgamentos.
A edição de 2026 possui um significado especial por marcar os 30 anos da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, uma trajetória construída por ativistas, coletivos e organizações que ajudaram a transformar a manifestação em uma das maiores expressões de cidadania e direitos humanos do planeta.
Para Heitor Werneck, a presença da ala representa um importante passo na construção de uma Parada cada vez mais inclusiva.
“A diversidade não pode excluir ninguém. A Ala Fetichista existe para mostrar que essas comunidades também fazem parte da história da luta LGBTQIAPN+, defendendo o respeito às diferenças, à liberdade de expressão e ao direito de cada pessoa viver sua identidade de forma autêntica e consensual”, destaca.
Organizada pela Comunidade Masculicidade e Edson Matos, a Ala fetichista contará neste ano com patrocínio do Dedados Bar e terá como ponto de concentração o Parque Trianon, a partir das 11 horas, na Avenida Paulista.
Resistência em tempos de recuo corporativo
A edição que celebra os 30 anos da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo também ficará marcada pelos desafios enfrentados por sua organização. A APOLGBT-SP, associação que organiza o evento confirmou uma redução de aproximadamente 60% nos patrocínios em relação a anos anteriores, reflexo de um movimento observado globalmente, em que diversas empresas passaram a reduzir investimentos em iniciativas ligadas à diversidade e inclusão.
O tema ganhou amplo espaço na imprensa nacional e internacional, alimentando debates sobre o chamado movimento anti-woke e levando a opinião pública a questionar até que ponto os compromissos corporativos com a diversidade representam valores permanentes ou apenas estratégias de posicionamento de marca. A redução dos investimentos acabou se transformando em um dos principais assuntos que antecederam a realização da Parada, gerando reflexões sobre o papel das empresas na defesa dos direitos LGBTQIAPN+.
Nesse contexto, a permanência da Ala Fetichista assume um significado ainda maior. Enquanto algumas grandes multinacionais optaram por reduzir sua presença em ações voltadas à diversidade, a iniciativa idealizada por Heitor Werneck encontrou apoio em empresas que mantêm uma conexão direta com a comunidade. Nesta edição, a Ala Fetichista conta com o patrocínio do Dédalos Bar, empreendimento paulistano voltado ao público LGBTQIAPN+ masculino e reconhecido por apoiar projetos de visibilidade e inclusão dentro da comunidade.
O apoio do Dédalos Bar simboliza um movimento que vai além do marketing de ocasião. Em um ano marcado por cortes orçamentários e pela retração de parte do mercado corporativo, a manutenção da Ala Fetichista demonstra que iniciativas comunitárias continuam encontrando formas de ocupar espaços e garantir representatividade.
Para Heitor Werneck, a existência da Ala Fetichista nunca esteve condicionada à validação de tendências de mercado. Seu propósito permanece o mesmo desde a criação do projeto: assegurar visibilidade para comunidades historicamente marginalizadas, incluindo integrantes dos universos BDSM, leather, kink, rubber, pup play e outras expressões da sexualidade consensual que fazem parte da diversidade LGBTQIAPN+.
Ao desfilar na Avenida Paulista durante a histórica edição de 30 anos da Parada, a Ala Fetichista se transforma também em um símbolo de resistência. Sua presença reforça que a diversidade continua existindo independentemente dos ciclos econômicos, das mudanças de posicionamento corporativo ou das disputas culturais que hoje dominam parte do debate público.












