O BDSM nasceu há 4 mil anos? A deusa do sexo e da guerra que dominava reis

O BDSM nasceu há 4 mil anos? A deusa do sexo e da guerra que dominava reis

Quando alguém fala em BDSM, a maioria das pessoas imagina uma prática moderna, ligada à sexualidade contemporânea. Mas poucos sabem que, há mais de quatro mil anos, uma das divindades mais poderosas da Mesopotâmia já protagonizava rituais de submissão, autoridade e entrega que hoje lembram, em alguns aspectos, a dinâmica entre dominantes e submissos.

Seu nome era Inanna, conhecida posteriormente pelos acadianos como Ishtar.

É importante esclarecer desde o início: o BDSM não existia como prática ou conceito na Antiguidade. No entanto, alguns dos símbolos que hoje associamos às relações de dominação e submissão aparecem de forma surpreendente em textos religiosos escritos milhares de anos antes da era cristã.

A deusa diante da qual até os reis se curvavam

Inanna era uma das divindades mais importantes da antiga Mesopotâmia. Seu culto surgiu por volta de 4.000 a.C., tornando-a uma das deusas mais antigas de que se tem registro.

Ela reunia atributos aparentemente contraditórios: era a deusa do amor e da sexualidade, mas também da guerra, da justiça, da fertilidade e do poder político.

Nenhum rei era considerado plenamente legítimo sem sua aprovação.

Nas inscrições reais e nos hinos dedicados à deusa, os governantes aparecem declarando fidelidade absoluta à sua vontade. O poder do rei existia porque a deusa permitia.

Em outras palavras: até o homem mais poderoso do reino precisava se submeter a ela.

Quando a submissão era um ritual sagrado

Diversos textos sumérios descrevem cerimônias religiosas em homenagem a Inanna nas quais sacerdotes, governantes e devotos realizavam demonstrações públicas de devoção.

Em alguns desses relatos aparecem elementos que chamam a atenção de qualquer pessoa familiarizada com o universo BDSM:

  • entrega completa à autoridade da deusa;
  • obediência absoluta;
  • perda voluntária do controle;
  • humilhação ritual;
  • inversão das relações de poder;
  • transformação espiritual por meio da submissão.

Esses rituais não tinham finalidade sexual como entendemos hoje.

Eram experiências religiosas que simbolizavam a dependência humana diante do poder divino.

Mesmo assim, é impossível não perceber como certos símbolos continuam presentes na cultura humana até hoje.

A sexualidade também fazia parte do poder

Ao contrário do que muitos imaginam, a sexualidade ocupava um lugar importante no culto de Inanna.

Ela era celebrada como fonte de fertilidade, prosperidade e renovação da vida.

Um dos rituais mais conhecidos era o chamado Casamento Sagrado, no qual o rei participava de uma cerimônia simbólica com uma sacerdotisa que representava a própria deusa.

O objetivo não era apenas religioso.

Esse ritual reforçava que o poder político dependia da união com a divindade e de sua aprovação.

Mais uma vez, autoridade, erotismo e poder apareciam profundamente conectados.

A deusa que controlava o destino dos homens

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Entre todas as divindades da Antiguidade, poucas eram tão imprevisíveis quanto Inanna.

Ela podia conceder riqueza ou destruí-la.

Elevar um rei ao trono ou derrubá-lo.

Conceder amor ou provocar guerras.

Essa dualidade ajudou a construir sua imagem de figura irresistível, diante da qual ninguém permanecia completamente livre.

Nos poemas antigos, reis e heróis frequentemente aparecem implorando sua proteção, aceitando suas decisões e reconhecendo sua superioridade.

A ideia de entrega absoluta à vontade de uma autoridade superior atravessa praticamente todo o seu culto.

A descida ao submundo: quando até a deusa perde o controle

O mito mais famoso de Inanna talvez seja sua descida ao submundo.

Para atravessar os sete portões do reino dos mortos, ela precisa retirar um símbolo de poder em cada passagem: sua coroa, suas joias, suas vestes e seus adornos.

Ao chegar diante de sua irmã, Ereshkigal, Inanna encontra-se completamente despojada de qualquer autoridade.

O mito costuma ser interpretado pelos estudiosos como uma narrativa sobre transformação, vulnerabilidade e renascimento.

Curiosamente, muitos desses conceitos também aparecem, séculos depois, em diferentes reflexões sobre confiança, entrega e mudança presentes nas relações BDSM consensuais.

Então… o BDSM nasceu há 4 mil anos?

A resposta é não.

O BDSM é uma prática contemporânea baseada em princípios como consentimento, comunicação, negociação e segurança.

Nada disso existia como conceito na antiga Mesopotâmia.

O que existia eram rituais religiosos e narrativas mitológicas em que autoridade, submissão, entrega, erotismo e transformação desempenhavam papéis centrais.

São fenômenos diferentes.

Mas ambos revelam algo fascinante sobre a natureza humana: nossa relação com o poder sempre foi muito mais complexa do que imaginamos.

Uma história muito mais antiga do que parece

Quando observamos a trajetória de Inanna, percebemos que a fascinação humana pelas dinâmicas de poder, confiança, entrega e autoridade não surgiu na modernidade.

Ela acompanha a humanidade desde o nascimento das primeiras civilizações.

Talvez seja justamente por isso que a história dessa deusa continue despertando tanto interesse quatro mil anos depois.

Não porque ela “praticasse BDSM” no sentido moderno da expressão, mas porque seu culto revela que a combinação entre erotismo, poder e submissão simbólica faz parte da história da humanidade desde seus primeiros registros escritos.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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