Fábrica de sextoys é acusada de enviar microeletrônicos e motores para a Rússia e o Irã

Fábrica de sextoys é acusada de enviar microeletrônicos e motores para a Rússia e o Irã

Investigação internacional coloca empresa chinesa no centro de uma apuração sobre exportação de componentes eletrônicos e levanta uma questão inesperada para o mercado erótico: até onde vai a responsabilidade sobre a cadeia de fornecedores?

O que uma fabricante de sex toys tem a ver com a guerra?

A pergunta parece absurda até aparecer em uma investigação internacional envolvendo uma empresa chinesa apresentada comercialmente como fabricante de “smart sex toys”.

Uma reportagem da UNITED24 Media, baseada em uma investigação da organização ucraniana NAKO – Independent Anti-Corruption Commission, afirma ter identificado operações comerciais da empresa Shenzhen NuanQin Technology envolvendo microeletrônicos e motores elétricos enviados para a Rússia.

Segundo a investigação, os registros analisados apontam para mais de US$ 100 mil em motores elétricos, além de circuitos integrados. Os investigadores também encontraram relações comerciais com empresas ligadas aos setores de drones e reciclagem de cartuchos de impressora.

O caso não significa que os produtos eróticos da empresa tenham sido enviados para uso militar. A questão está nos componentes e nas empresas envolvidas nas operações comerciais.

De sex toys a componentes eletrônicos

A Shenzhen NuanQin Technology aparece na investigação como uma empresa ligada à fabricação de produtos eróticos inteligentes.

Isso, por si só, não é tão estranho quanto parece.

Os sex toys contemporâneos incorporaram uma quantidade crescente de eletrônica: motores, placas, sensores, baterias, Bluetooth e sistemas controlados por aplicativos.

Esses componentes são produzidos em escala mundial e abastecem diversos setores.

É aí que entra o conceito de uso dual.

Um motor elétrico pode estar dentro de um produto erótico, de um eletrodoméstico ou de uma máquina industrial. Um circuito integrado pode fazer parte de um brinquedo, de um smartphone ou de equipamentos muito mais sofisticados.

O componente, isoladamente, não determina sua finalidade.

Por isso, controles de exportação e mecanismos de compliance analisam também compradores, intermediários, destinos e usuários finais.

Uma investigação muito maior

O caso da fabricante de sex toys faz parte de uma investigação mais ampla da NAKO.

Segundo a organização, foram analisados cerca de 1.800 fornecedores estrangeiros envolvidos em mais de US$ 800 milhões em comércio de microeletrônicos considerados prioritários pelo Ocidente.

A investigação também identificou centenas de empresas relacionadas a endereços associados a companhias submetidas a sanções ou controles de exportação.

Um exemplo citado pela NAKO está em Hong Kong: um único endereço comercial estaria associado a pelo menos 45 empresas. Quatorze delas estavam submetidas a sanções ou controles de exportação, segundo a organização.

A própria investigação ressalta que compartilhar um endereço não significa necessariamente pertencer ao mesmo grupo empresarial ou atuar de forma coordenada.

Por que isso interessa ao mercado erótico?

Porque o episódio mostra uma mudança importante na indústria.

O mercado erótico não trabalha mais apenas com produtos de plástico, silicone ou metal.

Existe hoje uma indústria de sexual wellness conectada, que utiliza tecnologias presentes também em outros segmentos de eletrônicos.

Isso significa que fabricantes e importadores precisam prestar cada vez mais atenção à origem dos componentes e aos parceiros comerciais.

Para grandes empresas, isso já faz parte de estruturas de compliance e gestão de fornecedores.

Para empresas menores, a preocupação pode começar por medidas simples: conhecer o fabricante, verificar documentação, manter registros das operações e evitar fornecedores sobre os quais existam sinais relevantes de irregularidade.

Não se trata de transformar cada sex shop em uma empresa de investigação internacional.

Trata-se de entender que a responsabilidade empresarial não termina necessariamente na porta da fábrica.

Um alerta para a indústria brasileira

O Brasil participa dessa cadeia global por meio da importação de produtos acabados e componentes.

E quanto mais sofisticados ficam os produtos, maior é a dependência de fornecedores internacionais.

Isso coloca uma nova palavra no vocabulário do mercado erótico: rastreabilidade.

Saber de onde vem um produto, quem o fabrica e por quais intermediários ele passou deixa de ser apenas uma preocupação de grandes multinacionais.

Pode se tornar uma vantagem competitiva para empresas que querem construir marcas sólidas e operar no mercado internacional.

O mercado erótico está crescendo — e ficando mais complexo

Talvez seja essa a principal mensagem desse caso.

A indústria erótica está deixando de ser um segmento isolado.

Ela conversa com tecnologia, aplicativos, eletrônica, saúde, entretenimento, logística internacional e proteção de dados.

Essa evolução abre oportunidades enormes, mas também traz responsabilidades que antes não faziam parte da rotina do setor.

O episódio envolvendo a Shenzhen NuanQin Technology é específico e está baseado em uma investigação ainda apresentada pelas autoridades e organizações envolvidas como uma apuração sobre as operações comerciais identificadas.

Mas o debate que ele provoca é maior.

Quando um produto erótico depende de uma cadeia tecnológica global, conhecer essa cadeia também passa a fazer parte do negócio.

E talvez essa seja uma das mudanças mais importantes — e menos visíveis — da nova indústria erótica.

Fonte: UNITED24 Media / NAKO – Independent Anti-Corruption Commission.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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