Quase metade dos franceses já tem um sextoy. O problema é que muitos ainda não sabem o que fazer com ele

Quase metade dos franceses já tem um sextoy. O problema é que muitos ainda não sabem o que fazer com ele

A popularização dos produtos eróticos criou um novo desafio para o mercado: o consumidor já não precisa apenas ser convencido a comprar. Ele precisa de ajuda para escolher, entender e descobrir o que realmente combina com ele.

Quase metade dos franceses já tem um sextoy em casa. O número impressiona, mas não é necessariamente o dado mais interessante de uma pesquisa recente sobre os hábitos sexuais na França.

O que chama atenção é o que acontece depois da compra.

Segundo dados do SexReport 2026, divulgados pela Doctissimo, 46% dos franceses afirmam possuir pelo menos um sextoy. Entre as mulheres, o percentual chega a 50%, enquanto entre os homens fica em 42%.

Ou seja: o sextoy já faz parte da vida íntima de uma parcela significativa da população.

Mas isso não significa que essas pessoas saibam exatamente qual produto escolher, como explorar suas possibilidades ou mesmo o que esperar de cada categoria.

E essa talvez seja uma das questões mais importantes para o futuro do mercado erótico.

Ter um sextoy não significa conhecer os sextoys

Durante muitos anos, uma das principais barreiras para o crescimento do mercado erótico foi convencer o consumidor de que comprar um produto para prazer não deveria ser motivo de vergonha.

O trabalho de fabricantes, lojas, profissionais e comunicadores ajudou a transformar essa percepção.

Hoje, falar sobre vibradores, estimuladores, produtos para casais e outros acessórios de prazer é muito mais natural do que era no passado.

O problema mudou.

Agora existe um consumidor que quer comprar, mas muitas vezes não sabe o que comprar.

De acordo com a pesquisa, 42% dos proprietários de sextoys ainda se consideram iniciantes. E, entre aqueles que demonstram interesse em experimentar um produto, 27% dizem não saber qual modelo escolher.

É uma contradição interessante: quanto mais o mercado cresce, maior fica a necessidade de orientação.

Quando variedade demais vira um problema

Quem acompanha a evolução do mercado erótico sabe o quanto a categoria se sofisticou.

Existem produtos de diferentes formatos, tamanhos, materiais, tecnologias, intensidades e propostas de utilização.

Há vibradores para diferentes tipos de estímulo, produtos para casais, modelos com controle remoto, dispositivos conectados a aplicativos e equipamentos desenvolvidos para experiências cada vez mais específicas.

A inovação é importante.

Mas existe um efeito colateral que nem sempre é percebido pelas empresas: uma oferta muito grande pode dificultar a decisão de compra.

Para quem já conhece a categoria, dezenas de opções podem ser interessantes.

Para quem está comprando seu primeiro produto, podem ser simplesmente confusas.

O consumidor pode não saber a diferença entre dois modelos.

Pode não entender uma função.

Pode escolher apenas pela aparência.

Pode comprar o produto mais barato.

Ou, diante de tantas possibilidades, simplesmente desistir.

Nesse cenário, informação passa a ser uma ferramenta comercial.

O consumidor não quer necessariamente mais produtos. Quer melhores respostas

Existe uma mudança importante acontecendo no varejo.

Durante muito tempo, a lógica foi:

“Tenho uma grande variedade de produtos para você escolher.”

Talvez a próxima etapa seja:

“Vou ajudá-lo a descobrir qual deles faz sentido para você.”

Parece uma diferença pequena, mas muda completamente a experiência de compra.

Uma loja especializada pode ter centenas de produtos. Entretanto, se o consumidor não consegue compreender as diferenças entre eles, a variedade deixa de ser uma vantagem competitiva.

É preciso transformar catálogo em curadoria.

Em vez de apresentar apenas características técnicas, explicar para quem aquele produto pode ser interessante.

Em vez de perguntar simplesmente “qual você quer?”, entender o que a pessoa procura.

Em vez de despejar informação, organizar a informação.

O vendedor também precisa mudar

Essa transformação é especialmente importante para o sexshop físico.

O consumidor que entra na loja pode estar vivendo uma situação completamente nova.

Talvez seja sua primeira compra.

Talvez esteja comprando para o casal.

Talvez tenha recebido uma indicação.

Talvez esteja simplesmente curioso.

E existe uma grande possibilidade de que ele não saiba nem sequer como formular a pergunta.

Por isso, o profissional de vendas precisa deixar de ser apenas alguém que conhece o estoque e passar a atuar como um orientador da categoria.

Não significa invadir a intimidade do consumidor.

Significa saber conduzir uma conversa com naturalidade, respeito e conhecimento.

Perguntas simples podem ser muito mais eficientes do que uma apresentação de vinte produtos.

O que a pessoa procura?

É a primeira experiência?

É para uso individual ou a dois?

Ela prefere algo discreto ou não se importa com o tamanho?

Busca uma experiência mais simples ou quer explorar novas possibilidades?

A partir dessas respostas, a seleção pode ser reduzida.

E uma decisão que parecia complicada começa a ficar muito mais fácil.

O primeiro sextoy pode determinar os próximos

Outro dado da pesquisa francesa merece atenção.

Entre os usuários de sextoys, 48% afirmam utilizá-los tanto sozinhos quanto com o parceiro.

Isso mostra que o produto não precisa ficar preso à ideia de uma utilização única.

Um mesmo consumidor pode começar sozinho e posteriormente levar o produto para a relação.

Pode experimentar uma categoria e depois descobrir outra.

Pode começar com um produto simples e, depois de entender melhor suas preferências, procurar algo mais sofisticado.

É assim que uma compra deixa de ser uma transação isolada e começa a construir uma relação com a categoria.

Por isso, a primeira experiência é estratégica.

Um consumidor que escolhe um produto adequado para seu nível de experiência tem muito mais chances de desenvolver uma relação positiva com a categoria.

Já uma compra mal orientada pode produzir frustração e afastamento.

Curiosidade continua vendendo

A pesquisa também mostra que a curiosidade permanece um importante motor de consumo.

Entre os usuários, 48% gostam de descobrir novos produtos regularmente. Para 36%, a compra de um novo sextoy está relacionada ao desejo de experimentar uma nova forma de estímulo.

Isso ajuda a explicar por que o mercado não deve enxergar o consumidor de sextoy como alguém que compra uma única vez.

Existe potencial para uma verdadeira jornada de descoberta.

Primeiro produto.

Segunda experiência.

Nova categoria.

Produto para casal.

Novo acessório.

Cosmético.

Tecnologia.

E assim por diante.

O consumidor vai conhecendo o próprio comportamento e, ao mesmo tempo, conhecendo o mercado.

A simplicidade pode ser a próxima grande inovação

Durante anos, a inovação dos sextoys esteve muito associada à tecnologia.

Mais velocidades.

Mais funções.

Mais programas.

Aplicativos.

Bluetooth.

Integração com smartphones.

Controle à distância.

Produtos cada vez mais inteligentes.

Mas talvez exista outra forma de inovar: tornar o produto mais fácil de entender.

Para um consumidor experiente, dez funções podem ser uma vantagem.

Para um iniciante, podem ser dez motivos para não saber por onde começar.

É por isso que produtos intuitivos, embalagens mais didáticas e comunicação mais clara podem ganhar importância.

A melhor tecnologia não é necessariamente aquela que oferece mais possibilidades.

Pode ser aquela que o consumidor entende imediatamente.

A embalagem também precisa ensinar

Esse cenário traz uma responsabilidade para fabricantes e distribuidores.

A embalagem não deveria apenas chamar atenção na prateleira.

Ela precisa ajudar o consumidor a responder algumas perguntas fundamentais:

Para quem é esse produto?

Qual é a sua principal proposta?

Como ele funciona?

É indicado para iniciantes?

Quais são suas características mais importantes?

Como deve ser higienizado e conservado?

Quanto mais claras forem essas respostas, menor será a insegurança na hora da compra.

E menor a dependência de conhecimento prévio.

Isso é especialmente importante em um mercado que pretende conquistar consumidores além daqueles que já frequentam sexshops.

O e-commerce enfrenta o mesmo desafio

No comércio eletrônico, a questão pode ser ainda maior.

No sexshop físico existe um profissional que pode conversar com o consumidor.

Na internet, essa função precisa ser desempenhada pela própria experiência digital.

Filtros.

Categorias.

Comparações.

Guias.

Vídeos explicativos.

Perguntas frequentes.

Avaliações.

Conteúdo educativo.

Tudo isso pode ajudar a substituir a conversa que aconteceria dentro da loja.

Um e-commerce que simplesmente coloca centenas de produtos em uma página está transferindo para o consumidor todo o trabalho de decidir.

Um e-commerce que organiza a jornada está fazendo curadoria.

E curadoria pode ser uma poderosa ferramenta de conversão.

O grande desafio agora é educar

O dado francês revela uma mudança importante na maturidade da categoria.

O mercado já conseguiu colocar o sextoy no imaginário e na vida cotidiana de uma parcela significativa dos consumidores.

Agora precisa ajudá-los a avançar.

Não basta dizer que o produto existe.

É preciso explicar.

Não basta mostrar a novidade.

É preciso contextualizar.

Não basta vender.

É preciso orientar.

Isso vale para fabricantes, distribuidores, sexshops, marketplaces, influenciadores, profissionais de comunicação e todos aqueles que participam da cadeia.

Porque um consumidor bem informado não é apenas alguém que compra melhor.

É alguém que pode voltar a comprar.

A próxima disputa não será apenas pelo produto

Se todos podem oferecer um vibrador, um estimulador ou outro produto de determinada categoria, o diferencial deixa de estar exclusivamente no produto.

Pode estar na experiência.

Na informação.

Na confiança.

Na curadoria.

No atendimento.

Na capacidade de traduzir uma categoria complexa para alguém que está começando.

É uma mudança que merece atenção de todo o mercado erótico.

A pergunta já não é somente:

“Como fazer mais pessoas comprarem sextoys?”

Talvez a pergunta mais importante seja:

“Como fazer com que elas tenham uma boa experiência depois que compram?”

Porque quase metade dos franceses já tem um sextoy.

E, se os dados estiverem mostrando uma tendência maior de comportamento, o próximo grande mercado pode não estar apenas nos novos consumidores.

Pode estar nos consumidores que já entraram na categoria, mas ainda precisam descobrir tudo o que ela pode oferecer.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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