Em 2005, quando a sexóloga Érica Rambalde, que inspirou a trologia dos filmes “De Pernas pro Ar” começou a atuar no mercado erótico, a pergunta mais comum não era sobre técnica, nem sobre produtos. Era mais básica — e mais dolorosa: é normal eu nunca ter tido um orgasmo? É normal eu nem saber se já tive um? Antes de falar sobre qualquer recurso de prazer, ela precisava desfazer décadas de vergonha. “Muitas mulheres sequer conheciam o próprio corpo e acreditavam que sentir prazer era algo secundário, ou até errado”, lembra.
Duas décadas depois, no Dia Mundial do Orgasmo, essa cena parece distante — mas não desapareceu por completo. O que mudou, segundo especialistas e empresários que testemunharam essa virada de dentro do mercado, foi o tamanho do silêncio ao redor do tema. E poucas histórias ilustram essa mudança tão bem quanto a empresas inovadoras que decidiram tratar prazer como saúde muito antes de isso virar tendência de bem-estar.
Um exemplo de sucesso é a Blush, fundada há cerca de 20 anos pela dupla Verna Meng e Eric, num momento em que a indústria de produtos eróticos ainda girava quase inteiramente em torno da novidade. A trajetória da marca — e, principalmente, o que ela revela sobre a evolução do mercado ao seu redor — funciona como um fio condutor para entender como o prazer feminino deixou de ser tabu para se tornar pauta de saúde pública, ciência e autoconhecimento.

De objeto proibido a ferramenta de autoconhecimento
Por muito tempo, vibradores e outros acessórios de prazer carregaram um estigma duplo: eram vistos como substitutos de parceiros ou como produtos “proibidos”, associados a vergonha e segredo. A virada começou, segundo Erica Rambalde, quando o discurso em torno desses objetos deixou de ser sobre erotismo isolado e passou a ser sobre saúde. “Eles ajudam muitas mulheres a descobrir como o próprio corpo funciona”, explica a sexóloga.
Essa mudança de percepção não aconteceu isoladamente da indústria — ela moldou, e foi moldada por, empresas que decidiram apostar em outro tipo de produto. Verna Meng lembra que, quando fundou a Blush, a maior parte do mercado ainda não tinha o mesmo foco em design bem pensado ou materiais de qualidade. “Acreditávamos que as pessoas mereciam algo melhor do que o que estava disponível na época”, diz. A aposta era simples no papel e ambiciosa na prática: produtos pensados a partir de quem os usa, não do que era tecnicamente possível fabricar.
Duas décadas depois, esse tipo de escolha de design encontra respaldo direto na literatura científica e na prática clínica.
Segundo Érica, o critério mais importante na hora de escolher um acessório íntimo é a segurança do material — de preferência silicone de grau médico, hipoalergênico — vindo de empresas que investem em certificação e controle de qualidade. “Um acessório, sem orientação, é apenas um objeto”, resume. “Quando vem acompanhado de educação sexual, ele se torna uma ferramenta poderosa para promover saúde, prazer e qualidade de vida.”

O mercado que aprendeu a falar a língua da saúde
A transição de “brinquedo erótico” para “bem-estar sexual” não foi decidida em uma sala de reunião corporativa. Segundo Verna Meng, foram os próprios consumidores que empurraram essa mudança.

“Ao longo dos anos, as pessoas ficaram mais à vontade para falar sobre relacionamentos, menopausa, saúde pélvica, saúde mental e autocuidado”, diz a CEO da Blush. “Com o tempo, o bem-estar sexual passou a fazer parte dessas conversas, em vez de ficar de fora delas.”
Ela nota uma mudança concreta na forma como os varejistas se relacionam com fornecedores: antes, as perguntas eram quase inteiramente sobre especificações técnicas do produto. Hoje, pedem materiais educativos e recursos que ajudem o cliente final a se sentir mais confiante. “Isso me diz que as pessoas não estão mais apenas buscando produtos. Estão buscando compreensão”, afirma.
Esse movimento tem paralelo direto no consultório. A sexóloga Karina Brum, que atua na prática clínica, descreve a mesma virada por outro ângulo: “A maior mudança foi a possibilidade de falar sobre prazer sem preconceito ou tabu. Há 20 anos, o tema era tratado sob uma perspectiva reprodutiva, moral ou de desempenho. Hoje existe mais espaço para discutir o prazer como parte da saúde física e mental.” Não é coincidência que o vocabulário da indústria e o vocabulário da clínica tenham convergido — ambos respondem à mesma demanda social por normalizar algo que nunca deveria ter sido tabu.
O paradoxo de falar mais e entender menos
Nem tudo, porém, é avanço linear. Karina Brum chama atenção para um paradoxo do presente: nunca se falou tanto sobre sexualidade — e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta comparação, excesso de informação e pressão para viver uma sexualidade “ideal”. “Muitas pessoas chegam ao consultório acreditando que existe uma forma correta de sentir prazer, quando, na realidade, a sexualidade é profundamente individual”, afirma.
O mesmo vale para as gerações mais jovens, que cresceram com acesso irrestrito a informação sobre sexo. Ter vocabulário não é o mesmo que ter educação sexual, pondera Karina: “Vejo muitos jovens que conhecem inúmeros termos sobre sexualidade, mas apresentam dificuldades importantes de comunicação afetiva, construção de intimidade e conexão com o próprio corpo. A educação emocional ainda não acompanhou a velocidade da informação disponível.”
É nesse ponto que a ciência ajuda a separar o fato de mito. Um dos exemplos mais persistentes, segundo Karina, é a crença de que a maioria das mulheres deveria ter orgasmo apenas pela penetração.
“A maioria das mulheres necessita de estimulação direta ou indireta do clitóris para atingir o orgasmo. Isso não representa uma disfunção, mas uma característica fisiológica”, explica. Outros dois mitos comuns no consultório: tratar o orgasmo como objetivo — e sua ausência como fracasso — e assumir que toda mulher deveria ter ejaculação feminina (squirt), quando, na prática, cada organismo responde de forma diferente a fatores como estresse, ansiedade e contexto emocional.

Design como resposta a um problema cultural
Se o discurso sobre prazer amadureceu, o design dos produtos teve que acompanhar. Segundo Verna Meng, apesar dos avanços evidentes em materiais, engenharia e tecnologia de bateria ao longo de duas décadas, a mudança mais significativa foi conceitual: “Vinte anos atrás, os produtos eram frequentemente desenhados em torno do que era tecnicamente possível. Hoje passamos muito mais tempo perguntando como um produto vai realmente se encaixar na vida de alguém.”

Isso inclui pensar conforto, acessibilidade, facilidade de uso e — talvez o ponto mais simbólico dessa mudança — estética que pareça acolhedora em vez de intimidadora. É uma resposta direta a décadas em que o próprio objeto reforçava o estigma que a indústria hoje tenta desfazer.
Do outro lado do balcão, Erica Rambalde observa o reflexo prático dessa diversidade de design: não existe um vibrador “melhor” para todo mundo, apenas o mais adequado para cada fase e nível de experiência de quem o usa. Quem está começando, segundo ela, geralmente precisa de um modelo diferente de quem já conhece bem o próprio corpo — uma constatação clínica que, não por acaso, se tornou também uma lição de design para marcas que buscam atender públicos amplos.
Uma indústria que aprendeu a ouvir antes de vender
Se há um traço comum entre a experiência clínica das sexólogas e a trajetória de uma empresa como a Blush, é a centralidade da escuta. Verna Meng conta que algumas das melhores ideias de produto da marca não vieram de um laboratório, mas de frases ouvidas de clientes — “eu queria que isso fosse mais confortável”, ou “eu queria que alguém tivesse me explicado isso antes”. A combinação entre pesquisa científica e experiência real do consumidor, diz ela, foi o que permitiu criar produtos mais intuitivos e úteis no dia a dia.

Karina Brum enxerga o mesmo princípio sob a ótica terapêutica. Para ela, um dos mitos mais nocivos sobre o orgasmo é tratá-lo como termômetro da felicidade dentro de uma relação — a ideia de que somos “obrigados” a dar prazer ao outro, o que gera ansiedade de desempenho e desconexão entre casais. “Seria muito mais saudável se pensássemos em ter prazer dando prazer”, diz. “O orgasmo seria apenas consequência do ato, e não uma espécie de prêmio.”
O que ainda falta
Nenhuma das especialistas — nem a empresária que constrói produtos, nem as sexólogas que atendem pacientes todos os dias — trata essa transformação como um capítulo encerrado. Karina defende que o próximo passo é integrar de vez a sexualidade ao conceito amplo de saúde, reconhecendo suas dimensões biológicas, psicológicas, relacionais e sociais. Verna reconhece que ainda existe uma oportunidade enorme de reduzir estigmas: “Isso não significa que o trabalho está concluído. […] Nosso trabalho não é simplesmente criar produtos. É ajudar as pessoas a se sentirem informadas, respeitadas e confiantes para fazer as escolhas certas para elas.”

Talvez seja esse o real legado dessas duas décadas — não um produto específico, nem uma marca isolada, mas uma mudança cultural mais ampla, da qual empresas, clínicas e consumidores participaram simultaneamente: tirar o prazer das sombras não para expô-lo, mas para devolvê-lo a quem sempre deveria tê-lo tido por direito.

Perguntas ainda muito frequentes sobre orgasmo
É normal não sentir orgasmo durante a penetração? Sim. Segundo a sexóloga Karina Brum, a maioria das mulheres precisa de estimulação direta ou indireta do clitóris para atingir o orgasmo — uma característica fisiológica, não uma disfunção.
Toda mulher precisa ter squirt (ejaculação feminina) para sentir prazer completo? Não. Cada organismo responde de maneira diferente, e fatores como estresse, ansiedade e contexto emocional influenciam diretamente essa experiência.
Como escolher um vibrador ou acessório de prazer com segurança? Especialistas recomendam produtos certificados, feitos com materiais seguros para o corpo, como o silicone de grau médico, e a atenção a fatores como ergonomia, resistência à água e facilidade de higienização.
Usar acessórios de prazer é sinal de disfunção sexual? Pelo contrário: os acessórios são ferramentas de autoconhecimento corporal, que ajudam a identificar zonas de prazer e comunicar desejos com mais segurança — desde que venham acompanhados de informação de qualidade.
Além disso, a Blush mostra que usar acessórios também pode ser muito divertido!














