Por Érica Rambalde
Durante anos, o mercado de Sexual Wellness trabalhou para quebrar tabus sobre prazer. Hoje, talvez seu maior desafio seja outro: ajudar a proteger quem ainda não aprendeu a se proteger sozinho.
Durante mais de vinte anos atuando no mercado de Sexual Wellness, aprendi que falar sobre sexualidade nunca foi apenas falar sobre sexo. É falar sobre dignidade, autonomia, respeito ao próprio corpo, consentimento, autoestima e, acima de tudo, proteção.
Foi justamente essa convicção que me levou a desenvolver, em parceria com a ONG Luz de Sophia, um projeto de Educação Sexual voltado para crianças e adolescente com doenças raras e suas famílias.
Essa iniciativa nasceu da escuta. Da escuta de mães e pais, de profissionais e da percepção de que pessoas com deficiência ou doenças raras continuam sendo invisibilizadas quando o assunto é sexualidade.

Existe um mito perigoso de que essas crianças não vivem sua sexualidade ou que esse assunto pode ser adiado indefinidamente. A realidade mostra exatamente o contrário.
Elas crescem, sentem curiosidade, vivenciam a puberdade, criam vínculos afetivos e também podem ser vítimas de abuso justamente pela ausência de informação adequada.
A educação sexual, nesse contexto, deixa de ser uma escolha e passa a ser uma estratégia de proteção.
O projeto foi cuidadosamente desenvolvido para respeitar as características cognitivas, emocionais e sociais desse público, oferecendo ferramentas práticas para pais, cuidadores e profissionais.
Entre os temas trabalhados estão o letramento emocional, os círculos de privacidade, a diferenciação entre afeto e contato íntimo, o desenvolvimento da autonomia corporal, o autocuidado, a saúde íntima, o reconhecimento de situações de risco, a segurança digital, o consentimento e o fortalecimento do chamado “alarme interno”.
Outro diferencial é estimular a transição do cuidador para o papel de consultor: alguém que orienta, acolhe e fortalece a autonomia de forma gradual e segura.
Nosso objetivo não é apenas prevenir abusos. É formar indivíduos capazes de compreender seu corpo, reconhecer seus direitos, estabelecer limites, comunicar desconfortos e construir relações saudáveis ao longo da vida.
Acredito profundamente que a educação sexual baseada em ciência salva vidas. Ela reduz vulnerabilidades, fortalece famílias, promove inclusão e oferece ferramentas para que pessoas com doenças raras possam exercer sua cidadania com mais autonomia e segurança.
Tenho orgulho de ver esse projeto despertando o interesse de diferentes setores da sociedade. O mercado de Sexual Wellness sempre esteve ligado à promoção do prazer, do bem-estar e da qualidade de vida. Mas seu papel pode ir além: também pode ser um importante agente de transformação social ao apoiar iniciativas que promovam educação, prevenção e inclusão.
Acredito que o mercado de Sexual Wellness amadurece quando entende que sua missão vai além dos produtos. Ele também pode promover informação, saúde, autonomia e proteção. Afinal, prazer e segurança caminham juntos, e a educação sexual continua sendo a ferramenta mais poderosa para transformar vidas.









