Por Karina Brum
Depois da maternidade, muitas mulheres passam a viver quase exclusivamente no papel de mãe. A rotina muda, o corpo muda, as prioridades mudam — e, silenciosamente, muitas vezes a mulher por trás da mãe começa a desaparecer.
Entre buscar o equilíbrio de fraldas e afazeres domésticos, trabalho e cansaço mental, algo se anula: o prazer feminino. Algumas mulheres passam meses ou até anos sem conseguir se reconhecer como mulheres desejantes, sensuais ou conectadas ao próprio corpo.
E isso não acontece porque “deixaram de gostar de sexo”. Na maioria das vezes, acontece porque estão exaustas. A maternidade pode ser profundamente amorosa, mas também extremamente desgastante física e emocionalmente.
Estudos mostram que privação de sono, estresse crônico, sobrecarga doméstica e alterações hormonais influenciam diretamente a libido feminina e a resposta sexual.
Além disso, existe um fator social importante: culturalmente, muitas mulheres ainda recebem a mensagem de que “boa mãe” deve ser totalmente dedicada aos filhos — quase como se prazer, erotismo e sexualidade fossem incompatíveis com maternidade.
Sem perceber, algumas começam a viver apenas para cuidar:
- dos filhos,
- da casa,
- da rotina,
- do relacionamento,
- do trabalho,
- de todo mundo.
Menos delas mesmas. Com o tempo, surge uma sensação difícil de explicar:“Eu amo meus filhos… mas sinto falta de mim.”
Essa desconexão pode afetar autoestima, intimidade no relacionamento e saúde emocional. Algumas mulheres relatam culpa ao tentar priorizar momentos para si mesmas.
Outras sentem vergonha do próprio corpo após mudanças físicas da maternidade. Há também quem associe sexo apenas a obrigação ou desempenho, sem espaço para prazer genuíno.
Mas é importante dizer algo que muitas mães precisam ouvir:
- Ter filhos não elimina o direito de ter prazer.
- Mães continuam sendo mulheres emocionais, sensíveis, inteligentes, desejantes, afetivas e sexualmente humanas.
- Gestar, ser mãe, criar – são bônus que elevam o nível de poder feminino.
Resgatar essa mulher “adormecida” não significa abandonar a maternidade. Significa integrar novamente partes da identidade que ficaram esquecidas no meio da sobrecarga. Esse processo pode começar de formas pequenas:
- voltar a olhar para si mesma;
- recuperar momentos individuais;
- reconectar-se com o próprio corpo;
- desenvolver autocompaixão;
- reconstruir intimidade emocional;
- permitir-se sentir prazer sem culpa.
A sexualidade feminina saudável não nasce da cobrança ou em lugares sem afeto. Ela costuma florescer em ambientes de segurança emocional, de descanso, de acolhimento e da conexão consigo mesma.
E talvez uma das maiores revoluções emocionais da maternidade moderna seja justamente esta, a mulher entender que cuidar de si não a torna uma mãe ruim ou má, mas sim, a resgata de um lugar que foi guardado e posto para adormecer: pulsão de vida feminina.
Beijos da Ka,












