Por Karina Brum
Um casal pode estar a dez centímetros de distância e emocionalmente desconectado. E duas pessoas separadas por milhares de quilômetros podem construir uma experiência de intimidade. Essa aparente contradição ajuda a compreender uma das áreas que mais cresceram no mercado de produtos sexuais: os dispositivos conectados.
Vibradores controlados por aplicativo, estimuladores comandados remotamente e acessórios que permitem interação sexual à distância estão transformando a maneira como alguns casais exploram intimidade e erotismo. O celular entrou na experiência sexual. Alguns dispositivos permitem que o próprio usuário controle intensidade, ritmo e padrões de estimulação pelo smartphone. Outros possibilitam entregar temporariamente esse controle ao parceiro. Isso cria uma experiência psicológica interessante porque o estímulo não é apenas físico.
Existe expectativa.
Existe antecipação.
Existe brincadeira.
Existe a percepção de que outra pessoa está participando daquela experiência. Para casais que vivem relacionamentos à distância — inclusive modelos LAT, nos quais cada parceiro mantém sua própria residência — essas tecnologias criam formas de preservar o repertório erótico. A utilidade não se restringe à distância geográfica.

Relacionamentos longos frequentemente enfrentam um fenômeno muito mais cotidiano: previsibilidade. Horários, filhos, trabalho, contas, tarefas domésticas e cansaço podem fazer o casal funcionar extremamente bem como equipe administrativa e cada vez menos como dupla erótica. Nesse contexto, introduzir novidade pode funcionar como convite para sair do piloto automático. Não porque o
brinquedo possua algum poder especial.
Mas porque ele cria uma situação excitante inovadora. E novidade, curiosidade, expectativa e fantasia podem participar da construção da excitação.
E por favor, o acessório não deve substituir comunicação entre o casal.
Existe, entretanto, deixo um aviso: comprar tecnologia sexual para resolver uma relação sexualmente desconectada sem conversar sobre essa “desconexão afetiva”não irá ser a chave do sucesso! Nenhum aplicativo consegue resolver ressentimento acumulado.
Nenhum vibrador corrige falta de consentimento. Nenhum masturbador automatizado produz intimidade emocional. E nenhum brinquedo substitui uma conversa sobre desejo.
Antes de introduzir qualquer recurso no relacionamento, algumas perguntas podem ser muito mais poderosas:
- O que desperta seu desejo atualmente?
- Existe alguma coisa que você gostaria de experimentar comigo?
- Existe algo que fazemos sexualmente apenas por obrigação?
- Em que momentos você se sente mais desejado ou desejada?
- O que faria nossa vida sexual parecer menos automática?
- E a inteligência artificial?
A próxima fase já começou. Produtos e aplicativos estão incorporando algoritmos capazes de personalizar padrões de estimulação e responder às preferências do usuário. A tendência é que dispositivos se tornem progressivamente mais adaptativos.
Isso também traz uma questão pouco discutida: privacidade sexual digital. Um dispositivo conectado pode lidar com informações extremamente íntimas sobre comportamento, preferências e padrões de utilização. Por isso, segurança digital e política de dados deveria entrar na decisão de compra tanto quanto potência, material ou design.
A tecnologia pode aproximar? Pode. Mas depende do lugar que damos a ela.
Quando utilizada consensualmente, com curiosidade e comunicação, pode ampliar o repertório erótico de um casal. Quando utilizada para evitar conversas necessárias, provavelmente apenas adicionará tecnologia a um problema que continuará existindo.
A sexualidade humana sempre foi muito maior do que o ato sexual. É vínculo, corpo, fantasia, comunicação, desejo, vulnerabilidade, segurança e descoberta. Talvez seja exatamente por isso que, mesmo cercados pela tecnologia mais sofisticada, uma das
perguntas mais importantes continue sendo profundamente humana:
“Como você gostaria de ser tocado por mim?”
Beijos da Ka,












