Luz vermelha e prazer: o que o novo produto da Lelo revela sobre o futuro dos sex toys

Luz vermelha e prazer: o que o novo produto da Lelo revela sobre o futuro dos sex toys

Por muito tempo, inovar no mercado de sex toys significou criar novas formas de estimular o corpo. Mais potência, motores mais silenciosos, diferentes padrões de vibração, controle por aplicativo, novos formatos e materiais.

Agora, a inovação começa a vir de outro lugar.

O novo MONA Spectra, da LELO, combina a estimulação interna já característica da linha MONA com uma tecnologia que até pouco tempo estava muito mais associada aos mercados de estética, beleza e wellness: a luz vermelha.

O lançamento é interessante não apenas pelo produto em si, mas pelo que ele representa. A indústria de prazer começa a incorporar tecnologias desenvolvidas ou popularizadas em outras áreas para criar uma nova proposta de consumo: produtos íntimos que não querem ser percebidos apenas como sex toys, mas como parte de uma rotina de cuidado com o corpo.

É uma mudança de posicionamento que pode influenciar os próximos lançamentos do setor.

Quando a tecnologia atravessa categorias

A luz vermelha, também chamada de fotobiomodulação, já é utilizada e estudada em diferentes contextos relacionados à pele e aos tecidos. A proposta envolve a exposição a determinados comprimentos de onda de luz, que podem interagir com processos celulares.

No MONA Spectra, a LELO incorporou LED vermelho com comprimento de onda entre 615 e 625 nanômetros. O aparelho também oferece, pelo aplicativo da marca, outras opções de iluminação, incluindo infravermelho próximo, azul e verde.

A empresa posiciona a tecnologia em torno de aspectos como circulação, elasticidade dos tecidos, lubrificação e vitalidade íntima.

Mas existe uma diferença importante entre utilizar uma tecnologia que possui pesquisas científicas em determinadas aplicações e comprovar que um determinado produto produz todos os benefícios que o marketing associa a ela.

É justamente aí que o lançamento fica mais interessante.

O que sabemos sobre a luz vermelha na região íntima?

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A reportagem da Mashable procurou uma especialista para avaliar as alegações relacionadas ao produto e à tecnologia.

A conclusão não é de que a luz vermelha seja inútil. Pelo contrário: existe um campo de pesquisa sobre fotobiomodulação e seus possíveis efeitos biológicos.

O problema é outro.

Ainda são limitadas as evidências específicas sobre os efeitos da luz vermelha aplicada à região íntima e, principalmente, sobre sua capacidade de produzir determinados resultados sexuais em mulheres saudáveis.

Algumas pesquisas investigam seu uso em situações relacionadas à saúde geniturinária, inclusive em mulheres na pós-menopausa. Mas isso não permite simplesmente transferir esses resultados para qualquer mulher ou afirmar que um sex toy com LED produzirá automaticamente aumento de sensibilidade ou melhora da função sexual.

Essa cautela é importante para toda a indústria.

À medida que os sex toys incorporam tecnologias relacionadas à saúde, estética e desempenho corporal, aumenta também a responsabilidade na comunicação dos benefícios.

O verdadeiro diferencial talvez não esteja na luz

Se retirarmos a novidade tecnológica por alguns minutos, existe uma questão estratégica mais ampla.

O MONA Spectra não foi criado para substituir a função erótica por uma função terapêutica. Ele continua sendo um produto de prazer.

A diferença está em acrescentar uma segunda camada à experiência.

A LELO apresenta o produto como uma combinação entre estimulação e cuidado íntimo, mantendo recursos tradicionais da categoria, como diferentes intensidades de vibração, controle pelo aplicativo, design ergonômico e resistência à água.

Essa combinação cria uma nova narrativa para o produto.

Em vez de:

“um vibrador que também tem luz”

a proposta passa a ser:

“um produto de prazer que incorpora uma tecnologia de cuidado corporal”.

Parece apenas uma mudança de linguagem, mas comercialmente ela é significativa.

O sex toy começa a disputar espaço com o wellness

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Essa aproximação não acontece por acaso.

O consumidor já está acostumado a produtos que misturam tecnologia e autocuidado. Máscaras de LED, massageadores, dispositivos de skincare, equipamentos para recuperação muscular e aplicativos de monitoramento corporal ajudaram a transformar aparelhos tecnológicos em elementos de rotina.

O mercado erótico pode seguir o mesmo caminho.

O resultado é uma expansão da categoria.

Um produto íntimo deixa de competir exclusivamente com outros vibradores e passa a dialogar com um universo muito maior de produtos voltados ao corpo, autocuidado e qualidade de vida.

É uma oportunidade especialmente interessante para marcas premium.

Quanto mais uma empresa consegue justificar seu produto por uma combinação de design, tecnologia, experiência e conhecimento sobre o corpo, menos sua comunicação depende exclusivamente da disputa por preço ou potência.

Para o varejo, isso muda a forma de vender

A chegada de produtos como o MONA Spectra também traz uma consequência prática para as lojas.

O vendedor que conhece apenas as características tradicionais de um sex toy terá mais dificuldade para explicar produtos que incorporam tecnologias de outras áreas.

Não basta dizer que existe uma luz vermelha.

É preciso explicar o que ela é, qual é a proposta do fabricante e, principalmente, onde termina a informação científica e começa a promessa comercial.

Essa necessidade de capacitação tende a crescer.

O mesmo pode acontecer com produtos que incorporem sensores, inteligência artificial, biofeedback, tecnologias relacionadas ao assoalho pélvico ou sistemas capazes de registrar respostas fisiológicas.

Quanto mais sofisticado fica o produto, mais sofisticada precisa ser a venda.

Uma nova geração de produtos pode surgir dessa convergência

O aspecto mais interessante do MONA Spectra talvez esteja justamente no precedente que ele cria.

Se uma tecnologia associada à estética pode ser incorporada a um produto de prazer, por que não outras?

A indústria pode começar a buscar soluções em áreas como fisioterapia, dermatologia, neurociência, tecnologia vestível, inteligência artificial e monitoramento corporal.

Isso não significa transformar sex toys em equipamentos médicos.

Significa reconhecer que o corpo não funciona em categorias comerciais isoladas.

Prazer, relaxamento, percepção corporal, saúde íntima e autocuidado fazem parte de uma mesma experiência.

A indústria está começando a explorar comercialmente essa interseção.

E existe uma oportunidade importante para o desenvolvimento brasileiro

Para fabricantes e desenvolvedores brasileiros, esse movimento merece atenção.

O mercado nacional possui uma tradição importante de criação de cosméticos sensuais, lubrificantes, produtos de massagem e acessórios voltados ao bem-estar íntimo.

A próxima etapa pode ser justamente a incorporação de tecnologia.

Não necessariamente copiando soluções desenvolvidas no exterior, mas identificando necessidades do consumidor brasileiro e buscando tecnologias capazes de criar novas respostas para elas.

A inovação não precisa estar apenas no formato do produto.

Pode estar no material, na experiência, na função, na conectividade ou na combinação de diferentes tecnologias.

A pergunta que fica para a indústria

O MONA Spectra não permite afirmar que a luz vermelha será a próxima grande revolução dos sex toys.

Ainda há questões científicas a serem investigadas e uma distância considerável entre pesquisas sobre fotobiomodulação e determinadas promessas comerciais.

Mas talvez esse nem seja o ponto principal.

O lançamento mostra que as fronteiras do mercado erótico estão ficando menos definidas.

A inovação que antes vinha de dentro da própria categoria começa a chegar de fora dela.

E isso pode ser muito mais transformador do que simplesmente lançar mais um vibrador com uma nova função.

O futuro dos sex toys pode estar menos relacionado à pergunta “como fazer um produto vibrar de uma maneira diferente?” e cada vez mais à pergunta:

“que tecnologias podem melhorar a relação das pessoas com o próprio corpo e também ampliar sua experiência de prazer?”

É nessa interseção que uma nova geração do mercado erótico pode começar a ser construída.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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