Sex toy é pecado? Pastor diz que não — e reacende uma discussão que o mercado erótico precisa enfrentar

Sex toy é pecado? Pastor diz que não — e reacende uma discussão que o mercado erótico precisa enfrentar

Declaração de líder religioso na Nigéria coloca os produtos eróticos dentro de uma discussão muito maior: até onde religião, casamento e prazer podem caminhar juntos?

Pode parecer apenas mais uma notícia sobre sex toys.

Não é.

Quando um líder religioso afirma publicamente que o uso de produtos eróticos por casais casados não constitui pecado, a discussão deixa de ser apenas sobre um vibrador ou qualquer outro produto. Ela passa a envolver religião, casamento, intimidade, moralidade e, inevitavelmente, mercado.

Foi exatamente isso que aconteceu na Nigéria.

Em reportagem publicada pelo jornal PUNCH, o apóstolo Joshua Aghasedo, da Powerline Church, afirmou que sex toys podem ser utilizados por casais dentro do casamento. O religioso comparou esses produtos a ferramentas utilizadas no cotidiano e defendeu que eles podem ajudar na vida íntima do casal.

Segundo a reportagem, Aghasedo chegou a contar que já havia recomendado um sex toy a um casal diante das circunstâncias específicas daquela relação.

A justificativa é particularmente interessante: o produto poderia ajudar a preservar a intimidade conjugal e evitar que dificuldades na vida sexual acabassem contribuindo para problemas no relacionamento.

E é justamente aí que a história fica interessante.

Quando o prazer deixa de ser um tabu religioso

Durante muito tempo, produtos eróticos foram colocados em uma espécie de território proibido dentro de determinados discursos religiosos.

O sex toy era associado à masturbação, à pornografia, à infidelidade ou à ideia de que um dos parceiros não seria suficiente para satisfazer o outro.

Mas existe uma diferença fundamental entre usar um produto como substituto do parceiro e utilizá-lo como parte da experiência sexual do casal.

É essa segunda possibilidade que começa a ganhar espaço.

O produto deixa de ser apresentado como uma ameaça ao relacionamento e passa a ser entendido como uma ferramenta de intimidade.

Essa mudança pode parecer pequena.

Para o mercado erótico, entretanto, ela é enorme.

O casamento pode ser uma porta de entrada para o mercado erótico

Existe uma oportunidade ainda pouco explorada quando falamos de produtos eróticos para casais.

Muitos consumidores não se identificam com a linguagem tradicional de “sexo sem limites”, “fantasias” ou “aventuras sexuais”.

Eles podem se identificar muito mais com palavras como:

intimidade.

conexão.

relacionamento.

prazer a dois.

descoberta.

bem-estar.

É uma diferença estratégica importante.

O consumidor não necessariamente quer “apimentar a relação”.

Às vezes, ele simplesmente quer recuperar a intimidade que existia no começo do relacionamento.

Quer descobrir uma nova forma de prazer.

Quer ajudar o parceiro.

Quer experimentar alguma coisa diferente.

Ou simplesmente quer tornar a vida sexual mais interessante.

É nesse espaço que o mercado erótico encontra uma oportunidade enorme de diálogo com casais que ainda não se consideram consumidores do setor.

E se o sex toy não fosse o problema?

Existe uma pergunta que raramente é feita:

por que um objeto criado para proporcionar estímulo sexual deveria necessariamente representar uma ameaça ao casamento?

Se um casal utiliza uma cama, uma música, uma iluminação especial, uma massagem ou qualquer outro recurso para melhorar sua experiência íntima, por que um produto erótico deveria automaticamente carregar um significado moral diferente?

O objeto não determina sozinho o significado da experiência.

O contexto determina.

E, no caso de um casal, esse contexto envolve principalmente consentimento, comunicação e vontade dos dois.

Um sex toy não precisa substituir uma pessoa.

Ele pode simplesmente ampliar aquilo que duas pessoas já estão fazendo juntas.

A fala do pastor é mais conservadora do que parece

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Apóstolo Joshua Aghases da Powerline Church

É importante observar que Aghasedo não apresentou uma liberação geral do uso de sex toys.

Sua declaração está relacionada ao casamento e à sua própria interpretação religiosa.

Ele também diferencia o uso do produto pelo casal de seu uso individual.

Portanto, não estamos diante de uma revolução teológica.

Estamos diante de algo talvez mais interessante:

um líder religioso reconhecendo que uma ferramenta criada para a sexualidade também pode fazer parte da intimidade conjugal.

E isso diz muito sobre como a sociedade está mudando.

O consumidor religioso existe — e não pode ser ignorado

Existe uma enorme oportunidade para o mercado erótico aprender a conversar com consumidores religiosos sem tentar transformar religião em argumento de venda.

Esse ponto é fundamental.

O consumidor cristão, evangélico, católico ou pertencente a qualquer outra tradição religiosa não deixa de ter sexualidade por causa da sua fé.

Ele se apaixona.

Casa.

Tem desejo.

Pode enfrentar diferenças de libido dentro do relacionamento.

Pode passar por dificuldades sexuais.

Pode ter curiosidade.

E também pode querer experimentar produtos que contribuam para sua vida íntima.

Ignorar esse consumidor significa ignorar uma parcela importante da sociedade.

Mas tentar conquistá-lo simplesmente colocando uma embalagem “gospel” em um produto também pode ser um erro.

O mercado não precisa vender religião

Esse talvez seja um dos principais aprendizados para fabricantes, distribuidores, lojistas e consultores.

Não é necessário transformar Deus em argumento de venda para conversar com consumidores religiosos.

É possível falar de sexualidade dentro do casamento com respeito aos valores do público sem instrumentalizar a fé.

Isso significa desenvolver produtos, conteúdos e estratégias de comunicação que respeitem diferentes visões de mundo.

O mercado erótico pode falar de prazer sem ser vulgar.

Pode falar de sexualidade sem ser pornográfico.

Pode falar de produtos sem estimular comportamentos que o consumidor não deseja.

E pode conversar com pessoas religiosas sem tentar dizer a elas em que devem acreditar.

Essa é uma fronteira delicada — e comercialmente muito interessante.

Essa conversa já fazia parte da história do Mercado Erótico

Para quem acompanha a trajetória do setor, a discussão que agora reaparece no noticiário internacional não é exatamente nova.

O Mercado Erótico já produziu conteúdo e conhecimento específico sobre a relação entre fé, casamento, sexualidade e produtos eróticos.

Guia-Gospel-para-Sexshops Sex toy é pecado? Pastor diz que não — e reacende uma discussão que o mercado erótico precisa enfrentar

Um exemplo é o livro Guia Gospel para Sexshops e Consultores de Casais, disponível na Livraria Mercado Erótico.

A proposta da obra é justamente abordar um público que durante muito tempo foi pouco compreendido pelo mercado: pessoas que possuem valores religiosos, mas que também vivem relacionamentos, têm desejos, enfrentam desafios na intimidade e procuram orientação para a vida sexual dentro do casamento.

Conheça o Guia Gospel para Sexshops e Consultores de Casais na Livraria Mercado Erótico

A existência de uma obra dedicada a esse tema mostra que a discussão não começou com a declaração do pastor nigeriano.

O que mudou é que ela está chegando a públicos e espaços cada vez mais amplos.

E isso merece atenção.

A pergunta que o mercado deveria fazer

Talvez a pergunta mais inteligente não seja:

“Como vender sex toys para religiosos?”

Mas:

“Como tornar o mercado erótico relevante para casais que possuem valores religiosos?”

A diferença parece apenas semântica.

Não é.

A primeira pergunta parte do produto.

A segunda parte do consumidor.

E é justamente essa mudança de perspectiva que pode abrir novas categorias, novos conteúdos, novas marcas e novas oportunidades de negócio.

A religião pode ajudar a quebrar um tabu que o mercado sozinho não conseguiu quebrar

Existe uma ironia nessa história.

Durante décadas, o mercado erótico tentou convencer as pessoas de que produtos sexuais poderiam fazer parte de uma vida íntima saudável.

Agora, em alguns contextos, são líderes religiosos que começam a participar dessa conversa.

Isso não significa que religião e mercado erótico estejam se tornando aliados.

Significa que o debate sobre sexualidade está ficando mais amplo.

E isso é positivo.

Quanto mais a sexualidade puder ser discutida de maneira adulta, responsável e sem desinformação, menor será o espaço para culpa, vergonha e preconceito.

A declaração da Nigéria deveria interessar ao mercado brasileiro

O Brasil tem suas próprias particularidades religiosas e culturais.

Mas existe uma questão universal:

pessoas religiosas também têm vida sexual.

E o mercado brasileiro ainda pode avançar muito na compreensão desse público.

Não apenas para vender mais.

Mas para criar uma comunicação mais madura sobre sexualidade.

A declaração de Joshua Aghasedo pode ser apenas uma notícia curiosa publicada na Nigéria.

Ou pode ser interpretada como um pequeno sinal de uma transformação muito maior.

A transformação de uma sociedade que começa, pouco a pouco, a separar duas coisas que durante muito tempo foram colocadas no mesmo lugar:

sexualidade e pecado.

Talvez o futuro do mercado erótico não esteja apenas em vender produtos cada vez mais tecnológicos.

Talvez esteja também em conseguir conversar com públicos que historicamente ficaram fora dessa conversa.

Inclusive aqueles que entram em uma sex shop pela primeira vez não porque querem “ousar”, mas porque querem melhorar o casamento.

E isso muda completamente a conversa.

Afinal, sex toy é pecado?

A resposta depende da religião, da interpretação e dos valores de cada pessoa.

Não cabe ao mercado erótico determinar aquilo que cada religião deve considerar certo ou errado.

Mas cabe ao setor compreender a sociedade para a qual vende.

E compreender que fé e sexualidade não são necessariamente universos excludentes.

Um casal pode ter valores religiosos e, ao mesmo tempo, buscar uma vida íntima mais satisfatória.

Pode querer conversar sobre prazer.

Pode procurar orientação.

Pode experimentar produtos.

Pode simplesmente querer melhorar sua conexão.

A declaração do pastor nigeriano não encerra essa discussão.

Ao contrário.

Ela mostra que a conversa está apenas começando.

E talvez a questão mais importante para o mercado não seja descobrir se um sex toy é pecado.

É descobrir como falar sobre sexualidade com respeito suficiente para que até quem sempre esteve fora dessa conversa possa finalmente participar dela.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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