As redes sociais estão ensinando sexo… ou espalhando desinformação?

As redes sociais estão ensinando sexo… ou espalhando desinformação?

Durante décadas, falar sobre sexo era um tabu. Hoje, basta abrir o TikTok, Instagram, YouTube ou X para encontrar milhares de pessoas dando dicas sobre prazer, relacionamento, anatomia, desempenho sexual e bem-estar íntimo. Nunca houve tanto conteúdo disponível sobre sexualidade.

Mas existe um problema: quantidade não significa qualidade.

Entre profissionais sérios e criadores de conteúdo bem-intencionados, também existe um oceano de desinformação. Mitos antigos ganharam uma nova embalagem, falsas promessas viralizam em poucos minutos e opiniões pessoais são apresentadas como se fossem verdades científicas.

A pergunta é inevitável: as redes sociais estão educando sexualmente a população ou apenas criando uma nova geração de pessoas mal informadas?

O algoritmo não premia quem está certo

Ao contrário do que muita gente imagina, as redes sociais não promovem o conteúdo mais correto. Elas promovem o conteúdo que gera mais engajamento.

Isso significa que títulos sensacionalistas, afirmações polêmicas e promessas milagrosas costumam receber muito mais visualizações do que conteúdos que explicam a sexualidade de forma responsável.

É por isso que frases como:

  • “Esse truque vai fazer qualquer mulher ter orgasmos.”
  • “Se você faz isso na cama, está fazendo tudo errado.”
  • “Homens de verdade duram mais de uma hora.”
  • “Existe um ponto secreto que ninguém conhece.”

costumam viralizar rapidamente, mesmo quando não possuem qualquer embasamento científico.

Influenciadores substituíram educadores?

Hoje, milhões de pessoas aprendem sobre sexo através de influenciadores digitais.

Isso não é necessariamente ruim.

Existem médicos, psicólogos, fisioterapeutas pélvicos, terapeutas sexuais, educadores sexuais e pesquisadores produzindo conteúdo excelente nas redes sociais.

O problema aparece quando qualquer pessoa passa a falar sobre temas complexos apenas porque acumulou seguidores.

Ter muitos likes não transforma ninguém em especialista.

Na prática, o número de seguidores virou, para muitos usuários, um falso selo de autoridade.

O perigo das experiências pessoais

Outro fenômeno comum é transformar experiências individuais em regras universais.

Frases como:

  • “Funcionou comigo.”
  • “Meu relacionamento melhorou depois disso.”
  • “Todo casal deveria fazer.”

não significam que aquela prática funcionará para todas as pessoas.

A sexualidade humana é extremamente diversa.

O que gera prazer para uma pessoa pode ser completamente indiferente para outra.

Generalizações costumam criar expectativas irreais e, muitas vezes, frustração.

O excesso de performance está prejudicando o prazer

Grande parte do conteúdo sexual nas redes gira em torno da performance.

Como durar mais.

Como atingir múltiplos orgasmos.

Como fazer posições difíceis.

Como impressionar o parceiro.

Como nunca falhar.

O resultado é uma geração que parece mais preocupada em “performar bem” do que em viver uma experiência prazerosa.

Sexo deixa de ser conexão para virar uma prova de desempenho.

Isso aumenta ansiedade, insegurança e medo de não corresponder às expectativas criadas pela internet.

Os riscos da desinformação

A desinformação sexual pode gerar consequências muito além da curiosidade.

Entre elas:

  • insegurança corporal;
  • vergonha do próprio desempenho;
  • culpa relacionada ao prazer;
  • medo de procurar ajuda profissional;
  • crenças equivocadas sobre anatomia;
  • perpetuação de preconceitos e estereótipos.

Em alguns casos, informações falsas também podem comprometer a saúde sexual e reprodutiva.

Como identificar conteúdos confiáveis

Nem sempre é fácil separar informação de opinião.

Alguns sinais ajudam:

  • o criador apresenta formação ou experiência reconhecida na área;
  • cita pesquisas ou fontes confiáveis;
  • evita promessas milagrosas;
  • reconhece que cada pessoa é diferente;
  • explica limitações e contextos;
  • incentiva o pensamento crítico em vez de oferecer soluções mágicas.

A boa educação sexual não vende medo nem cria inseguranças para depois oferecer uma solução.

Ela informa, acolhe e promove autonomia.

Educação sexual também é responsabilidade do mercado

Há mais de duas décadas atuando no mercado erótico brasileiro, sempre defendi que vender produtos para adultos não é suficiente. Quem trabalha nesse segmento precisa compreender a sexualidade humana em sua complexidade, respeitando a diversidade, a ciência e as diferentes formas de vivenciar o prazer.

Foi justamente por acreditar nisso que, em 2006, idealizei o primeiro seminário de palestras voltado exclusivamente para empresários do mercado erótico. Desde então, a capacitação em sexualidade sempre foi uma das minhas principais bandeiras, pois considero que conhecimento gera responsabilidade, melhora o atendimento ao consumidor e contribui para o desenvolvimento ético e profissional de todo o setor.

Empresas e profissionais bem preparados não apenas oferecem melhores experiências aos consumidores, como também ajudam a combater mitos e a disseminar informações confiáveis em uma área ainda cercada por preconceitos e desinformação.

Informação é poder — mas precisa ser verdadeira

As redes sociais democratizaram o acesso ao conhecimento sobre sexualidade como nunca antes.

Isso representa uma enorme oportunidade para quebrar tabus, ampliar o diálogo e promover uma vida sexual mais saudável.

Mas essa oportunidade só será plenamente aproveitada quando os usuários aprenderem a consumir informações com senso crítico.

Antes de compartilhar um vídeo ou acreditar em uma dica que promete transformar sua vida sexual em poucos segundos, vale fazer uma pergunta simples:

Quem está dizendo isso… e com base em quê?

No universo da sexualidade, a curiosidade é sempre bem-vinda. A desinformação, não.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

Verified by ExactMetrics