Prazer descartável: o lixo sexual que ninguém quer enxergar

Prazer descartável: o lixo sexual que ninguém quer enxergar

Falar de sexo ainda causa desconforto. Falar do lixo gerado pelo sexo, então, parece quase proibido. Mas os números são escandalosos demais para continuar sendo varridos para debaixo do tapete: preservativos, sex toys e lubrificantes estão associados a estimadas 222,9 milhões de toneladas de resíduos por ano apenas no Reino Unido. Um volume que rivaliza com setores inteiros da indústria tradicional — e que segue praticamente fora do debate ambiental.

Enquanto marcas do mercado adulto vendem discursos sobre liberdade, autocuidado e bem-estar, o rastro deixado após o orgasmo permanece invisível. Invisível, mas permanente.

O prazer dura minutos. O lixo, décadas.

Preservativos são usados uma única vez. Lubrificantes vêm em frascos plásticos, sachês laminados e aplicadores descartáveis. Sex toys, vendidos como objetos de prazer e empoderamento, frequentemente são feitos de materiais impossíveis de reciclar e acabam no lixo comum após poucos anos — quando não meses.

O problema não é o sexo. O problema é o modelo de consumo que o mercado adulto adotou: rápido, descartável, embalado em plástico e sustentado por lançamentos constantes que estimulam a troca, não a durabilidade.

Silicone, PVC, ABS, látex tratado quimicamente. Nada disso desaparece quando o prazer acaba. Pelo contrário: permanece em aterros, rios e oceanos por gerações.

Sustentabilidade seletiva: só vale para alguns mercados?

A indústria da moda foi pressionada. A de alimentação foi cobrada. A de cosméticos precisou se adaptar. Mas o mercado adulto parece operar em uma bolha moral conveniente: ninguém quer parecer careta questionando o impacto ambiental do prazer.

O resultado? Uma indústria que cresce sem freios enquanto empurra para o consumidor a culpa silenciosa do descarte. Não há orientação clara, não há logística reversa, não há política consistente de reciclagem. Há apenas consumo — e mais consumo.

É curioso observar como empresas defendem diversidade, inclusão e liberdade, mas evitam discutir responsabilidade ambiental. O discurso é progressista. A prática, nem tanto.

O tabu como escudo corporativo

Parte da responsabilidade está no tabu. Falar de lixo sexual constrange. Falar de descarte de preservativos ou vibradores ainda é visto como “assunto indelicado”. E o mercado sabe disso. O silêncio protege margens de lucro.

Enquanto isso, consumidores seguem comprando sem questionar:

  • Para onde vai esse produto depois?
  • Por que ele não foi feito para durar?
  • Por que não existe reciclagem?
  • Por que a embalagem precisa ser tão excessiva?

Perguntas simples, mas perigosas para um setor que se acostumou a vender prazer sem consequências.

Inovação de verdade ou greenwashing erótico?

Algumas marcas começam a flertar com o discurso sustentável: embalagens “eco”, materiais “mais verdes”, promessas vagas de responsabilidade ambiental. Mas, na prática, poucas entregam mudanças estruturais.

Sustentabilidade não é pintar a caixa de papel kraft.
Sustentabilidade é repensar materiais, reduzir descartáveis, investir em durabilidade, assumir o impacto e educar o consumidor.

O resto é greenwashing erótico — bonito na comunicação, vazio no impacto real.

O mercado adulto precisa amadurecer

Os 222,9 milhões de toneladas de resíduos não são apenas um dado alarmante. São um espelho. Mostram que o mercado adulto atingiu um tamanho e uma relevância que exigem maturidade.

Prazer não pode continuar sendo sinônimo de descarte.
Liberdade não pode justificar irresponsabilidade ambiental.
E empoderamento não combina com um planeta sufocado por plástico, silicone e resíduos invisíveis.

Se o setor quer ser visto como moderno, consciente e relevante, terá que enfrentar essa conversa incômoda. Porque o verdadeiro tabu, hoje, não é só o sexo. É assumir o lixo que ele produz.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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