Por Karina Brum
Quem nunca pensou “que puta mulher gostosa”, quando viu aquela mulher preta sambando feliz na avenida, está sendo hipócrita. Quantas cantadas já ouvimos sobre o corpo e o tom de pele da mulher preta? Inúmeras, com certeza.
Lendo alguns artigos, me recordei que todo 21 de março, há um movimento de luta e conscientização em prol da Eliminação da Discriminação Racial. E eu entendo ser importante falar, enquanto mulher branca privilegiada que sou, os dados estatísticos devastadores sobre como é ser uma mulher preta no Brasil. Então temos as seguintes afirmações:
87% das mulheres pretas já sofreram violência psicológica
78% das mulheres pretas já sofreram violência física
25% das mulheres pretas já sofreram violência sexual
33% das mulheres pretas viveram a violência patrimonial
É muito angustiante entender que as mulheres pretas morrem mais do que as mulheres brancas, que elas têm menos proteção, sofrem mais violência doméstica e institucional, que tem menor acesso a justiça e que ainda carregam o impacto de forma intergeracional quando comparados as mulheres brancas.
As mulheres pretas são frequentemente menos escolhidas em relações estáveis, são mais sexualizadas e menos reconhecidas como parceiras afetivas e enfrentam exclusão no universo afetivo. Dentro do viés da sexualidade, a mulher preta convive diariamente com a hipersexualização histórica, com o racismo afetivo, com a exclusão do ideal estético, com a maior exposição à violência, com a invisibilização do prazer e com a resistência e reconstrução identitária.
E o mais bizarro nisso tudo é que historicamente, nosso país foi colonizado por pessoas negras e indígenas.
Há em mim um sentimento pujante e com forte senso de urgência que busca caminhos e ferramentas educativas para fomentar o conhecimento e reconhecimento identitário racial, na luta incansável para eliminar o preconceito no Brasil – e afirmo mais, o preconceito não fica apenas na pele – nosso país é estruturalmente preconceituoso. E deixo aqui a reflexão, a raiz central do preconceito é e sempre será o medo – medo que as pessoas têm de serem substituídas, comparadas, julgadas ou ameaçadas. As pessoas têm verdadeiro pânico de tudo que for diferente ou atípico. Esse medo é o responsável por propagar a intolerância, por fomentar o ódio e por disseminar falas vazias e sem fundo, sem verdade sobre o que é bom ou ruim, certo ou errado.
E digo mais, já ouvi falas desprezíveis do tipo: “mulher branca quando entra numa sex shop é porque ela quer que o casamento dê certo – ela busca inovar e apimentar a relação” – agora, quando uma mulher preta entra numa sex shop, o conteúdo da fala muda na velocidade da luz para: “essa preta tem muito fogo, o marido dela não dá conta não”.
No que eu acredito? Eu acredito que todas as mulheres, todas nós, merecemos a mesma coisa – desejamos pertencer, desejamos sororidade, equidade, respeito. Nós desejamos ser validadas e enaltecidas pelo que sabemos ou sentimos, e não pelo tom da nossa pele ou pelo tamanho do nosso quadril ou pelos seios e lábios fartos.
Eu desejo à todas as mulheres pretas, pardas, amarelas, albinas, brancas, com vitiligo ou indígenas – que tenhamos o mesmo acesso ao coisas boas e extraordinárias do mundo. Somos todas da mesma espécie, a humana.
Beijos da Ka,












