Por Karina Brum
Revisitando alguns documentos da história antiga, percebo que apesar das restrições e desigualdades, o desejo erótico conseguia encontrar formas de manifestação. A única coisa que se mantem firme atualmente é que na maioria das culturas, a liberdade sexual era privilégio sempre esteve autorizado homens, pobres ou ricos. No contexto histórico, as mulheres, os pobres e os corpos fora “da norma” eram silenciados, anulados ou banidos.
Acho muito justo trazer alguns fatos que nos acompanham há milhares de anos e que ainda hoje causam sofrimento, segregação e alienação. O prazer sempre foi visto como parte essencial da experiencia humana, contudo, era fundamental ter o controle dessa espécie de manifestação humana.
Na Grécia Antiga o sexo era visto como algo natural e essencial à vida. Tanto que as relações entre homens mais velhos e jovens faziam parte de uma cultura educacional e filosófica. Mesmo não concordando com essa realidade, entendo que com o passar do tempo, esse conceito se tornou adoecido, servindo como “justificativa” entre os pedófilos. Outra verdade é sobre a mulher, que tinha sua sexualidade restrita ao casamento e para reprodução. Nós éramos verdadeiras “incubadoras” biológicas.
Já na antiga Roma, a sexualidade era interpretada como fonte de poder, status e desejo. A sociedade romana associava o sexo ao poder – não que isso atualmente tenha tido mudanças. O mais chocante na minha visão ficou na parte em que era totalmente naturalizado e autorizado ter relações sexuais com corpos escravizados, ou prostitutas e até mesmo outros homens, desde que esse homem fosse o “ativo”.
E mais uma vez a mulher só se lasca! A sexualidade feminina era vigiada e moralmente reprimida. O adultério era considerado crime, mas a prostituição era legalizada e supervisionada pelo Estado sendo vista como utilitária ao cidadão romano.
O Egito antigo me trouxe um pouquinho de alívio, hahahaha – O sexo era visto como cosmicamente harmônico e estava associado à fertilidade e a ordem. Tanto que a história trata a sexualidade dos deuses Ísis e Osíris com muita naturalidade.
E olha que incrível: os homens e mulheres tinham acesso ao divórcio, sem receberem nenhum julgamento – a ideia era que o matrimonio deveria ter acesso a questões afetivas e sexuais. O mais legal é que todos os objetos eróticos encontrados, possuíam textos que mostravam claramente que o erotismo não era tabu, mas sim, uma parte do importante da espiritualidade.
Isso foi levado ainda mais a sério na Índia antiga. O prazer fazia parte da jornada espiritual humana. Aqui encontram-se a arte expressa do Kama Sutra, que valorizava o prazer como um dos pilares da vida. O sexo era visto como um caminho legítimo para o bem-estar e a realização pessoal. O prazer feminino era celebrado, altamente discutido e supervalorizado. Genteeeeeeee, porque isso desapareceu da nossa sociedade tida como “moderna”?
Já no Japão e China antigos, o erotismo era estético e nutria a energia vital. A manifestação da sexualidade era em forma de arte e literatura, e os conteúdos eram afetuosos, elegantes e repletos de liberdade. A China também seguia essa linha e complementava com a visão do equilíbrio das energias yin e yang, ou seja, a sexualidade era ferramenta fundamental dentro do processo de longevidade e saúde.–
Encontrei repressão na era dos Povos Hebreus. Aqui já começa o retrocesso – a sexualidade ligava o sexo apenas a reprodução como lei divina e a mulher era propriedade do homem. O adultério era motivo de condenação à morte. A contradição fica explicita na passagem bíblica: Cântico dos Cânticos – há uma celebração ao amor em forma de poema, que faz dedicação romântica ao desejo e ao amor, trazendo o tema de forma sensual e lírica – um raríssimo retrato da sexualidade isenta culpa.
Na minha interpretação, consigo transcrever esse legado da nossa sexualidade como algo nem sempre livre, mas com certeza, sempre presente. Houve tempos que demonstrar prazer era sinônimo de liberdade e identidade. A reflexão que temos que fazer: onde foi que deixamos os preconceitos castraram nossa forma de expressão mais legitima? Por que se confunde ainda liberdade com libertinagem? E, até quando a mulher vai aceitar esse papel social imposto de “puta”, sempre que toma a iniciativa do flerte ou do sexo?
São pensamentos que gostaria que você, estimado leitor, fizesse para sim mesmo. Talvez você não encontre uma única resposta, mas certamente o simples fato de pensar fará você se movimentar em busca do conhecimento – isso nos libertará.
Bjs da Ka.