Violência contra a mulher: o machucado começa por dentro!

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Violência contra a mulher: o machucado começa por dentro!

Por Karina Brum

Quando pensamos em violência doméstica, uma das primeiras imagens que surgem é a de uma mulher fisicamente machucada. E na verdade, a violência física, é, no geral, o último estágio dentre todas as formas de se agredir uma mulher. Uma mulher pode nunca ter recebido um tapa e, ainda assim, estar vivendo uma relação profundamente violenta.

No Brasil, a Lei Maria da Penha reconhece cinco formas principais de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Entender essas diferenças é fundamental dentro do processo de prevenção e combate à violência contra mulher – afinal, muitas de nós pensamos:

“Mas ele nunca me bateu” ou “ele nunca bateu nela”. 

Vamos as orientações:

1. Violência física

É qualquer comportamento que agrida a integridade ou a saúde corporal da mulher, ou seja:

• tapas;

• socos;

• empurrões;

• chutes;

• puxões de cabelo;

• queimaduras;

• mordidas;

• estrangulamento ou sufocamento;

• agressões utilizando objetos;

• ferimentos com armas.

Também é importante compreender que empurrar, segurar violentamente ou impedir fisicamente uma mulher de sair de determinado ambiente não deve ser normalizado/naturalizado, simplesmente porque não deixou marcas aparentes.

2. Violência psicológica

É uma das formas mais silenciosas e potentes de violência e que produzem consequências profundas para a saúde mental feminina, são:

• humilhações;

• ameaças;

• chantagem;

• manipulação;

• perseguição;

• vigilância;

• isolamento;

• insultos;

• intimidação;

• controle excessivo;

• desqualificação constante.

Imagine uma mulher que escuta repetidamente:

“Você não consegue viver sem mim.”

“Ninguém vai querer você.”

“Você é louca.”

“Você não sabe fazer nada direito.”

Quando esse tipo de mensagem é repetido continuamente, pode comprometer autoestima, autonomia e percepção de realidade. Com o tempo, algumas mulheres começam a duvidar de si mesmas.

3. Violência sexual

Estar namorando, morando junto ou sendo casada com alguém não significa consentimento sexual permanente. Violência sexual pode acontecer quando uma mulher é obrigada, pressionada, intimidada ou coagida a participar de práticas sexuais que não deseja.

Também pode envolver impedir o uso de métodos contraceptivos, interferir na autonomia reprodutiva ou pressionar a mulher a realizar práticas sexuais contra sua vontade. Consentimento não é ausência de resistência. Consentimento pressupõe possibilidade real de escolha.

Frases comuns ditas dentro desse contexto de violência sexual:

“Você é minha mulher, não pode ficar me negando sexo.” 

“Se você me amasse, faria isso por mim.” 

“Depois de tudo que faço por você, o mínimo é me satisfazer.” 

“Para de frescura, você vai gostar.” 

“Você começou, agora tem que terminar.” 

“Você não pode mudar de ideia agora.” 

“Casal que se ama não precisa ficar pedindo consentimento.” 

“Se você não fizer comigo, vou procurar quem faça.” 

“Você só está cansada porque não quer transar comigo.” 

“Não usa camisinha, eu não gosto.” 

“Se engravidar, o problema é seu.” 

“Você não precisa tomar anticoncepcional, eu controlo.” 

“Quero gravar, mas ninguém vai ver.” 

“Se você terminar comigo, eu mostro nossas fotos/vídeos.” 

“Você estava bêbada, mas eu sabia que no fundo queria.”

4. Violência patrimonial

Essa forma de violência atinge os recursos, documentos, patrimônio ou instrumentos necessários à autonomia da mulher.

Alguns exemplos:

• esconder documentos;

• controlar integralmente seu salário;

• tomar seu cartão bancário;

• destruir objetos pessoais;

• impedir que tenha acesso ao próprio dinheiro;

• apropriar-se de seus recursos;

• destruir instrumentos utilizados para trabalhar;

• criar deliberadamente dependência financeira.

A violência patrimonial pode funcionar como importante mecanismo de aprisionamento dentro de uma relação abusiva. Quando uma mulher não possui dinheiro, documentos ou recursos próprios, sair pode tornar-se muito mais difícil.

5. Violência moral

A violência moral envolve comportamentos que atingem a honra e a reputação da mulher. Pode aparecer por meio de calúnia, difamação ou injúria. Exemplos incluem espalhar informações ofensivas, fazer acusações falsas, expor a mulher publicamente ou utilizar insultos para atacar sua dignidade. Nas redes sociais, essa violência também pode ganhar proporções devastadoras.

Um aspecto importante é compreender que essas formas de violência frequentemente se sobrepõem. Uma mulher pode sofrer violência psicológica, sexual, patrimonial e física dentro do mesmo relacionamento. Além disso, a violência pode apresentar escaladas.

Por isso, esperar pela primeira agressão física para reconhecer que existe um problema pode significar ignorar muitos sinais anteriores.

A pergunta não deveria ser apenas:

“Ele já bateu em você?”

Também precisamos perguntar:

“Você sente medo dele?”

“Ele controla sua vida?”

“Você pode dizer não?”

“Você consegue tomar decisões livremente?”

“Você consegue sair desse relacionamento se desejar?”

Violência não começa necessariamente quando alguém levanta a mão, mas quando uma pessoa passa a acreditar que possui o direito de controlar a vida da outra.

Karina Brum é psicóloga e sexóloga. E tem como propósito desmistificar tabus, preconceitos socioculturais e crenças limitantes, oferecendo ferramentas que libertem a pessoa para seguir sua vida de forma singular. Além de falar sobre as demandas sexuais e da sexualidade humana, de forma divertida, científica, às vezes meio irônica, porém sempre muito sensata.

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