Por que alguns homens ainda se sentem ameaçados por um objeto criado para aumentar o prazer do casal? Vamos explicar como esse preconceito surgiu e por que ele está perdendo força.
Você conhece algum homem que já disse que vibrador é “concorrência desleal”? Pode parecer exagero, mas esse pensamento foi muito comum durante anos. No início da popularização dos sex toys no Brasil, muitas mulheres escondiam seus vibradores dos parceiros por medo de ciúmes, críticas ou até conflitos no relacionamento. Mas será que isso ainda acontece ou estamos diante de uma masculinidade que finalmente aprendeu a enxergar o prazer feminino de outra forma?
Ao longo de mais de duas décadas acompanhando a evolução do mercado erótico brasileiro, testemunhei uma mudança significativa no comportamento dos consumidores. Quando presidia a Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (ABEME), entre 2010 e 2017, era comum ouvir relatos de lojistas sobre homens que viam o vibrador como um “rival”. Hoje, embora essa resistência ainda exista em alguns casos, o cenário é bem diferente: cada vez mais casais escolhem esses produtos juntos e entendem que eles não substituem ninguém — apenas ampliam as possibilidades de prazer, intimidade e conexão.
O problema nunca foi o vibrador
O vibrador sempre foi um objeto. Quem lhe atribuiu o papel de “concorrente” foi uma construção cultural que, por décadas, ensinou aos homens que eles deveriam ser os únicos responsáveis pelo prazer da parceira.
Quando essa ideia é colocada em prática, qualquer elemento externo pode parecer uma ameaça: um sex toy, uma fantasia, um filme romântico ou até uma conversa franca sobre desejos. O problema, portanto, nunca esteve no produto, mas na forma como parte da sociedade construiu a masculinidade.
Durante muitos anos, escutei mulheres dizerem frases como:
“Meu marido não deixa eu comprar um vibrador.”
“Ele acha que vou preferir o brinquedo a ele.”
“Preciso esconder o vibrador porque ele fica incomodado.”
Esses relatos eram frequentes nas lojas especializadas e mostravam que o preconceito não estava relacionado ao produto, mas ao medo de ser substituído.
Um mito que o próprio mercado ajudou a derrubar
No início da década de 2010, quando o mercado erótico brasileiro começou a ganhar mais espaço na mídia, ainda predominava a ideia de que vibradores eram produtos para mulheres solteiras ou insatisfeitas sexualmente.
Essa percepção mudou rapidamente.
A chegada de novos produtos para casais, o crescimento da educação sexual, a atuação de terapeutas e sexólogos e o próprio amadurecimento do mercado mostraram que os sex toys não competem com ninguém. Eles são ferramentas para ampliar experiências, estimular descobertas e facilitar o diálogo sobre prazer.
Foi justamente nesse período que observamos uma transformação importante: homens começaram a entrar nas sex shops com menos constrangimento e muitos passaram a participar da escolha dos produtos ao lado das parceiras.
A ciência também desmonta esse preconceito
Diversos estudos internacionais mostram que casais que incorporam brinquedos eróticos de forma consensual relatam benefícios como maior satisfação sexual, melhor comunicação e mais intimidade.
Isso acontece porque o foco deixa de ser desempenho e passa a ser experiência compartilhada.
Em vez de perguntar “quem dá mais prazer?”, o casal começa a perguntar “como podemos sentir mais prazer juntos?”.
Essa mudança de perspectiva reduz a pressão sobre ambos e torna a sexualidade mais leve, divertida e colaborativa.
O vibrador nunca substituiu ninguém
Existe uma comparação simples que ajuda a entender essa questão.
Ninguém acredita que uma escova elétrica substitui um dentista.
Da mesma forma, um vibrador não substitui um relacionamento, o carinho, a cumplicidade, a conversa, o desejo, o toque, o beijo ou a conexão emocional.
São experiências completamente diferentes.
Enquanto um parceiro oferece afeto, presença, intimidade e troca, o vibrador é apenas um recurso para ampliar determinadas sensações físicas.
Confundir essas duas coisas é como acreditar que um instrumento musical substitui um músico.
Ainda existe preconceito?
Sim.
Embora tenha diminuído bastante, ele ainda aparece principalmente quando a sexualidade é encarada como uma disputa de desempenho.
Em muitos casos, o desconforto não nasce do vibrador, mas da insegurança, da falta de diálogo ou da crença de que o prazer feminino depende exclusivamente do parceiro.
A boa notícia é que esse cenário vem mudando.
Cada vez mais homens entendem que participar da descoberta do prazer da parceira fortalece a relação, em vez de enfraquecê-la.
O maior concorrente continua sendo a insegurança
Depois de mais de 25 anos acompanhando o mercado erótico, cheguei a uma conclusão que permanece atual.
O vibrador nunca foi concorrente do homem.
O verdadeiro concorrente sempre foi a insegurança.
Quando o casal conversa abertamente sobre desejos, fantasias e limites, o sex toy deixa de ser visto como ameaça e passa a ocupar o lugar para o qual foi criado: um acessório que pode enriquecer a vida sexual, fortalecer a intimidade e proporcionar novas experiências.
Talvez a pergunta nunca devesse ser se o vibrador substitui o homem.
A pergunta correta é: por que um objeto criado para aumentar o prazer do casal ainda desperta tanto medo em algumas pessoas?
A resposta, felizmente, parece estar mudando. E essa mudança diz muito mais sobre a evolução das relações do que sobre a evolução dos próprios produtos.












