Quando fevereiro chega, o Brasil oficialmente suspende a caretice. O Carnaval é esse território simbólico onde o corpo vira manifesto, o desejo ganha glitter e a fantasia deixa de ser apenas figurino para se tornar discurso.
E se nas ruas a criatividade corre solta, nos sex shops o termômetro do consumo erótico sobe — e muito. Não por acaso, as fantasias lideram o ranking de vendas neste período, revelando mais do que tendências estéticas: elas escancaram comportamentos, fetiches e novas formas de viver a sexualidade.
Nos bastidores do varejo erótico, o Carnaval já é tratado como uma “data quente”, comparável ao Dia dos Namorados. A diferença? Aqui o apelo não é o romance, mas a liberdade. A seguir, analisamos os tipos de fantasias mais procurados nos sex shops durante o Carnaval — e por que elas fazem tanto sucesso.
Profissões: poder, controle e jogo de papéis
As fantasias de profissões continuam no topo da lista ano após ano. Enfermeiras, médicas, policiais, bombeiras, professoras e executivas dominam as prateleiras. E não é difícil entender o motivo: elas dialogam diretamente com o role play, uma prática cada vez mais popular entre casais e pessoas solteiras que querem explorar dinâmicas de poder, autoridade e submissão de forma consensual e lúdica.
No Carnaval, essas fantasias ganham versões mais curtas, ousadas e adaptadas ao calor brasileiro. Tecidos leves, transparências estratégicas e modelagens que permitem tanto o uso em festas quanto em momentos íntimos. Para o lojista atento, é a oportunidade perfeita de trabalhar a fantasia como produto híbrido: serve para a folia e continua rendendo experiências depois dela.
BDSM em versão carnavalesca: fetiche sem culpa
Outro destaque são as fantasias com estética BDSM, que deixam o underground e assumem o protagonismo no mainstream carnavalesco. Harnesses, coleiras, bodies em vinil ou cirrê, máscaras e acessórios que remetem ao fetiche aparecem não apenas nos sex shops, mas também nos blocos e camarotes.
O que mudou? A forma como o fetiche é comunicado. No Carnaval, ele vem embalado como moda, performance e atitude. A fantasia BDSM não é mais um “segredo de quatro paredes”, mas uma afirmação de identidade sexual. Para o mercado erótico, isso significa um consumidor mais informado, menos envergonhado e disposto a investir em peças de melhor qualidade e design.
Fantasias geek e pop: desejo com identidade
Personagens inspirados na cultura pop, anime, games e super-heroínas também figuram entre os mais vendidos. Mulher-gato, arlequina, personagens futuristas e versões sensuais de ícones nerds conquistam um público que quer unir fantasia sexual e pertencimento cultural.
Esse tipo de fantasia cresce especialmente entre consumidores mais jovens, que enxergam o erotismo como extensão da própria personalidade — e não como algo dissociado do cotidiano. Para os sex shops, vale apostar em coleções temáticas e comunicações que conversem com esse universo, usando linguagem menos “adultizada” e mais pop.
Fantasias plus size e diversidade corporal: desejo real, corpos reais
Um dado importante — e ainda subestimado por parte do mercado — é o aumento da procura por fantasias plus size e modelos que valorizem diferentes tipos de corpos. O Carnaval, ao contrário do que muitos pensam, não é só sobre corpos padronizados. É sobre presença, autoestima e prazer.
Sex shops que investem em grades ampliadas, campanhas inclusivas e manequins diversos colhem resultados diretos nas vendas. A mensagem é clara: todo corpo é um corpo desejante — e o Carnaval potencializa essa percepção.
Fantasias minimalistas: menos tecido, mais intenção
Nem só de personagens vive o desejo carnavalesco. Bodies cavados, conjuntos com transparência, hot pants, tops eróticos e peças que flertam com a lingerie também estão entre os itens mais vendidos. Muitas consumidoras preferem montar sua própria “fantasia”, misturando sensualidade, conforto e estilo pessoal.
Essa tendência aponta para um comportamento interessante: o erotismo deixa de ser caricato e passa a ser autoral. O consumidor não quer apenas “se fantasiar de algo”, mas expressar quem ele é — inclusive sexualmente.
O Carnaval como vitrine estratégica para o mercado erótico
Mais do que uma data sazonal, o Carnaval é uma vitrine poderosa para o sex shop que sabe trabalhar narrativa, exposição de produto e comunicação digital. Fantasias puxam vendas cruzadas com acessórios, maquiagens corporais, preservativos, lubrificantes e até brinquedos eróticos compactos, ideais para viagens e festas.
Para o setor, fica o recado: quem entende o Carnaval não como excesso, mas como expressão legítima do desejo humano, sai na frente. Porque, no fim das contas, fantasia não é fuga da realidade — é uma das formas mais honestas de encará-la.
E se o Brasil é o país do Carnaval, o mercado erótico tem um papel claro nesse enredo: lembrar que prazer, quando é consensual e consciente, também é cultura.












