O que é heteroflexível: a sexualidade que mais cresceu em 2025

O que é heteroflexível: a sexualidade que mais cresceu em 2025

A sexualidade nunca foi um território estático — mas, nos últimos anos, ela passou a ser nomeada, debatida e vivida com muito mais liberdade. Em 2025, um termo em especial ganhou força, visibilidade e números expressivos: heteroflexível. Segundo dados do aplicativo de relacionamentos Feeld, o número de pessoas que se identificam dessa forma cresceu 193% nos últimos 12 meses, tornando essa a identidade sexual de crescimento mais acelerado do ano.

Esse dado não surge isolado. Ele reflete uma transformação cultural mais ampla, marcada pelo questionamento de rótulos rígidos, pela curiosidade sexual consciente e pela busca por experiências mais autênticas. Mas afinal, o que significa ser heteroflexível — e por que tantas pessoas passaram a se reconhecer nesse termo?

O que significa ser heteroflexível?

De forma objetiva, heteroflexibilidade descreve pessoas que se identificam majoritariamente como heterossexuais, mas que não excluem totalmente a possibilidade de experiências afetivas ou sexuais com pessoas do mesmo sexo.

Não se trata, necessariamente, de alguém que busca ativamente relações homoafetivas, tampouco de uma identificação plena com a bissexualidade. A heteroflexibilidade ocupa um espaço intermediário — fluido, contextual e, muitas vezes, situacional.

Alguns exemplos comuns ajudam a entender melhor:

  • Pessoas em relacionamentos heterossexuais estáveis que se sentem abertas a experiências pontuais com alguém do mesmo sexo
  • Casais heterossexuais interessados em experiências a três, envolvendo uma pessoa do mesmo gênero
  • Indivíduos que se consideram héteros, mas reconhecem curiosidade, desejo ou abertura emocional fora do padrão estritamente heterossexual
  • Pessoas que não buscam relações homoafetivas, mas não as descartam caso surjam de forma natural
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Em todos esses casos, o ponto central não é a frequência ou a prática, mas a abertura psicológica e afetiva para a experiência.

Heteroflexível não é bissexual — e nem precisa ser

Um dos equívocos mais comuns é tentar encaixar a heteroflexibilidade dentro da bissexualidade. Embora exista interseção, os próprios especialistas reforçam que são vivências distintas.

Enquanto a bissexualidade pressupõe atração por mais de um gênero de forma mais consistente, a heteroflexibilidade pode envolver curiosidade, exceção, contexto ou experimentação, sem que isso se torne um eixo central da identidade sexual.

O Dr. Luke Brunning, professor de Ética Aplicada da Universidade de Leeds, destacou que essas identidades emergentes refletem algo essencial:

“A crescente consciência de que a sexualidade é complexa. Seria surpreendente se as pessoas nunca sentissem curiosidade sexual por alguém do mesmo sexo ou gênero, ou se a atração funcionasse de forma totalmente previsível.”

Ou seja, a heteroflexibilidade legitima nuances que sempre existiram, mas que antes não tinham nome — ou espaço social para serem assumidas.

O crescimento de 193% apontado pelo relatório Feeld Raw 2025 não pode ser explicado por um único fator. Ele resulta de uma combinação de mudanças culturais, tecnológicas e comportamentais.

1. Menos medo de rótulos, mais liberdade de experimentação

As novas gerações têm demonstrado menor apego a categorias fechadas. Identidades hoje funcionam mais como ferramentas de comunicação do que como caixas definitivas.

2. Ambientes digitais mais seguros para explorar

Plataformas como a Feeld criaram espaços onde a fluidez não é exceção, mas regra. Isso reduz o estigma e incentiva pessoas a nomearem desejos antes silenciados.

3. Redefinição da masculinidade e da feminilidade

Especialmente entre homens e mulheres jovens, há uma desconstrução das ideias tradicionais sobre desejo, virilidade e comportamento sexual.

4. Cultura do prazer consciente

O avanço do discurso sobre consentimento, autoconhecimento e prazer sem culpa — inclusive no mercado adulto — abriu caminho para experiências menos normativas e mais honestas.

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O que os dados globais revelam sobre fluidez sexual

O relatório da Feeld também trouxe recortes geográficos interessantes:

  • Berlim aparece como a cidade mais heteroflexível do mundo, além de liderar em relacionamentos abertos
  • Nova Iorque registrou o crescimento mais rápido de pessoas que se identificam como bissexuais, com alta de 161%
  • De forma geral, 2025 marcou um aumento significativo na fluidez sexual declarada dentro do aplicativo

Segundo Dina Mohammad-Laity, vice-presidente de Dados da Feeld:

“Estamos vendo um aumento no número de pessoas explorando conexão e ludicidade de maneiras autênticas e fluidas, redefinindo o que significa se relacionar e se reconhecer em 2025.”

Esses dados não indicam “moda”, mas sim maior liberdade para nomear vivências que sempre existiram.

Heteroflexibilidade, desejo e mercado adulto

Do ponto de vista do mercado adulto e da educação sexual, a heteroflexibilidade é especialmente relevante. Ela desafia narrativas simplistas e amplia o entendimento sobre consumo, fantasias e comportamento.

Pessoas heteroflexíveis tendem a:

  • Buscar conteúdos menos binários
  • Consumir produtos voltados à experimentação, ao casal e à diversidade de estímulos
  • Valorizar comunicação, consentimento e segurança emocional
  • Rejeitar rótulos rígidos na hora de explorar prazer

Isso reforça a importância de uma abordagem educativa, inclusiva e sem julgamento — tanto na mídia quanto nos produtos e discursos sobre sexualidade.

Uma sexualidade mais honesta, não mais confusa

Ao contrário do que alguns críticos sugerem, a ascensão da heteroflexibilidade não representa confusão identitária. Ela representa honestidade emocional.

Reconhecer que o desejo pode ser flexível, contextual e mutável não fragiliza identidades — pelo contrário, torna-as mais reais. Em 2025, mais pessoas simplesmente se permitiram dizer: “sou majoritariamente hétero, mas não sou fechado ao que posso sentir”.

E talvez esse seja o dado mais importante por trás dos 193% de crescimento: menos repressão, mais verdade.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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