Sexo e deficiência: como a tecnologia pode ampliar a autonomia e o prazer

Sexo e deficiência: como a tecnologia pode ampliar a autonomia e o prazer

Um vibrador que não precisa ser segurado. Um suporte que mantém o produto na posição desejada. Um controle que pode ser acionado sem precisar alcançar o aparelho. Uma almofada que ajuda a sustentar o corpo.

Para quem nunca precisou desses recursos, podem parecer detalhes. Para uma pessoa com pouca mobilidade nas mãos, dificuldade de equilíbrio ou movimentos limitados, eles podem fazer a diferença entre conseguir usar um produto com autonomia ou precisar da ajuda de outra pessoa.

É por isso que falar de sexualidade e deficiência também significa falar de design, adaptação e tecnologia assistiva.

E talvez a primeira coisa a ser dita seja a mais simples: pessoas com deficiência também têm desejo, curiosidade, fantasias, relacionamentos e vontade de sentir prazer.

O que pode mudar é a maneira de chegar até ele.

Quando o produto não é o problema

Imagine alguém que consegue movimentar os braços, mas tem pouca força nas mãos.

Segurar um vibrador durante alguns minutos pode ser cansativo ou simplesmente impossível.

Agora imagine que esse mesmo vibrador possa ser preso a um suporte.

O produto continua sendo o mesmo. O que mudou foi a maneira de utilizá-lo.

Outro exemplo: uma pessoa com movimentos reduzidos nos dedos pode ter dificuldade para apertar um botão pequeno. Um controle remoto ou um comando maior pode tornar a utilização muito mais simples.

Para alguém que não consegue manter determinada posição corporal, uma cunha ou almofada de posicionamento pode ajudar a sustentar o corpo e diminuir o esforço.

São adaptações aparentemente pequenas. Mas autonomia costuma ser construída justamente assim.

Por onde começar?

Quem procura um produto adaptado nem sempre sabe o que procurar. E esse é um dos primeiros problemas.

Em vez de começar pelo nome de um brinquedo, pode ser mais útil começar pela dificuldade que precisa ser resolvida.

“Não consigo segurar o produto.”

Procure soluções como:

  • suportes;
  • alças;
  • sistemas de fixação;
  • dispositivos hands-free;
  • produtos que possam ser posicionados sem permanecer nas mãos.

Algumas adaptações permitem prender o dispositivo ao corpo ou a uma superfície estável, reduzindo a necessidade de segurá-lo continuamente.

“Consigo segurar, mas me canso rapidamente.”

Nesse caso, peso e ergonomia passam a ser importantes.

Um produto menor ou mais leve pode ser mais confortável. Alças maiores também podem facilitar a utilização por quem tem pouca força ou dificuldade para fechar os dedos.

Vale observar também o formato do botão. Não adianta um produto ser leve se o comando exige força ou precisão que a pessoa não consegue fazer.

“Tenho dificuldade para apertar botões.”

Procure produtos com:

  • botões maiores;
  • comandos simples;
  • controle remoto;
  • acionamento por aplicativos, quando forem acessíveis;
  • poucos comandos e funções fáceis de identificar.

Quanto menos movimentos precisos forem necessários, melhor pode ser a experiência para algumas pessoas com limitações motoras.

“Tenho dificuldade para permanecer em determinadas posições.”

Aqui o produto erótico pode nem ser a primeira coisa a ser considerada.

Almofadas, cunhas e sistemas de posicionamento podem ajudar a dar apoio ao corpo.

A posição precisa ser confortável e segura. Uma adaptação que facilita o acesso ao produto, mas provoca dor, pressão excessiva ou instabilidade, não resolveu o problema.

“Não consigo usar as mãos.”

Existem dispositivos desenvolvidos para uso sem as mãos, além de suportes e sistemas de fixação.

Esse é um campo particularmente interessante porque mostra que acessibilidade não significa necessariamente criar um produto completamente diferente.

Às vezes, significa permitir que o produto seja utilizado de outra maneira.

E se eu precisar de uma adaptação feita para mim?

Essa é uma possibilidade que ainda merece muito mais atenção no mercado brasileiro.

Nem todo corpo vai se adaptar perfeitamente a um produto pronto.

Uma pessoa pode precisar de um suporte específico, de uma alça maior, de uma peça para fixar determinado aparelho ou de uma adaptação que considere sua amplitude de movimento.

Nesses casos, profissionais de terapia ocupacional podem ajudar a avaliar a atividade e identificar recursos que aumentem a independência. A American Occupational Therapy Association reconhece o uso de equipamentos adaptativos no campo da saúde sexual e aponta a atuação desses profissionais nessa área.

A impressão 3D também abre possibilidades interessantes para adaptações personalizadas, especialmente quando uma peça precisa ser feita de acordo com medidas ou limitações específicas.

Mas existe um cuidado fundamental: uma adaptação para uso íntimo não deve ser tratada como qualquer peça doméstica.

Materiais, resistência, estabilidade, higiene, bordas, pontos de pressão e possibilidade de ruptura precisam ser considerados. Quando houver dúvida, vale buscar orientação de um profissional qualificado.

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Cadeira de rodas e sexualidade

Outro assunto pouco falado é o próprio uso da cadeira de rodas durante a atividade sexual.

Dependendo da condição física da pessoa e da cadeira utilizada, pode ser possível realizar determinadas atividades sem fazer uma transferência para a cama.

Mas segurança vem antes da improvisação.

Freios devem estar acionados, a estabilidade precisa ser considerada e deve-se evitar situações que possam provocar queda, esmagamento ou pressão prolongada sobre regiões sensíveis.

Diretrizes clínicas para pessoas com lesão medular discutem justamente questões como posicionamento, estabilidade e proteção da pele durante a atividade sexual.

Isso mostra uma coisa importante: acessibilidade sexual também é segurança.

E quem não tem deficiência motora?

Quando se fala em acessibilidade, é comum pensar imediatamente em cadeira de rodas. Mas deficiência não é sinônimo de mobilidade reduzida.

Uma pessoa com deficiência visual pode precisar de outra forma de identificar comandos e produtos.

Uma pessoa com deficiência auditiva pode depender menos de sinais sonoros e mais de informações visuais.

Alguém com dificuldade de coordenação motora pode ter necessidades completamente diferentes de uma pessoa que não consegue movimentar os braços.

Por isso, não existe um único “produto para pessoas com deficiência”.

Existe uma enorme variedade de corpos e necessidades.

Essa talvez seja uma das principais mudanças de mentalidade que o mercado erótico precisa fazer.

O direito ao prazer não desaparece com a deficiência

No Brasil, isso não é apenas uma discussão sobre comportamento ou mercado.

A Lei Brasileira de Inclusão estabelece que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, incluindo expressamente o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos. A legislação também prevê atenção à saúde sexual e reprodutiva da pessoa com deficiência.

Ou seja, não cabe ao mercado decidir se uma pessoa com deficiência “deveria” ou não se interessar por produtos eróticos.

A decisão pertence a ela.

O papel do mercado é oferecer informação, produtos seguros e alternativas que permitam que cada consumidor encontre aquilo que funciona para seu próprio corpo.

Antes de comprar, faça estas perguntas

Para quem está procurando um produto erótico acessível, algumas perguntas podem evitar muita frustração:

1. Consigo segurar o produto?
Se não, procure uma alternativa hands-free ou um suporte.

2. Consigo apertar os comandos?
Observe o tamanho e a resistência dos botões.

3. Consigo alcançar o produto depois de colocado?
Se não, um controle remoto pode fazer diferença.

4. O peso é confortável para mim?
Um produto pequeno nem sempre é leve o suficiente, e vice-versa.

5. Preciso manter determinada posição?
Talvez uma almofada ou suporte corporal seja mais importante do que trocar o produto.

6. Consigo colocar, retirar e higienizar sozinho?
Autonomia também inclui essas etapas.

7. O produto oferece risco de queda ou pressão sobre o corpo?
Se houver dificuldade de sensibilidade ou mobilidade, esse cuidado deve ser redobrado.

8. A embalagem e as instruções são compreensíveis para mim?
A acessibilidade começa antes de abrir o produto.

O mercado pode fazer muito mais

Uma das coisas mais interessantes nessa discussão é perceber que muitas soluções desenvolvidas pensando em acessibilidade podem beneficiar qualquer consumidor.

Um botão grande é mais fácil de usar para muita gente.

Um controle remoto pode ser interessante para um casal.

Um produto leve pode agradar quem simplesmente prefere não carregar peso.

Uma embalagem fácil de abrir melhora a experiência de qualquer pessoa.

É por isso que acessibilidade não precisa ser vista como um nicho isolado.

Ela pode ser uma oportunidade para pensar produtos melhores.

No Brasil, já existem iniciativas acadêmicas nessa direção. Um projeto desenvolvido na UNESP, por exemplo, propôs um acessório para adaptar brinquedos eróticos a pessoas com comprometimento da mobilidade dos membros superiores. O projeto mostra que existe espaço para aproximar design, tecnologia assistiva e mercado erótico.

Ainda há muito a ser criado.

E talvez a pergunta mais interessante para fabricantes e designers não seja “qual sex toy podemos fazer para pessoas com deficiência?”

Talvez seja:

“Como podemos fazer com que mais pessoas consigam escolher, comprar e usar um produto erótico com autonomia?”

Essa mudança de pergunta abre um mercado inteiro.

E, principalmente, coloca a pessoa onde ela deveria estar desde o começo: no centro da decisão sobre o próprio prazer.

Publicitária, consultora e especialista no Mercado Erótico, escritora e empresária. Atua no setor erótico brasileiro desde o ano 2000. Presidente da ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto, é autora de 28 livros de negócios e sobre produtos eróticos para consumidores. Entre 2010 e 2017, presidiu a ABEME – Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.Citada em mais de 100 teses universitárias e livros de sexualidade, desenvolve e projeta produtos eróticos e cosméticos sensuais para os maiores players do mercado. Criadora, em 2006, do primeiro seminário de palestras para empresários do setor, é apoiadora e presença constante nos mais importantes eventos eróticos do mundo.Idealizou o Prêmio Mercado Erótico, que desde 2016 reconhece empresas, inovações, produtos e iniciativas que impulsionam o desenvolvimento da indústria. É fundadora e coautora do portal MercadoErótico.org.

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